quarta-feira, 1 de julho de 2009

Envelopes (muito bem) Selados

Debruçada nas costas inclinadas de um colega, tinha o pescoço esticado e a face virada para a esquerda, observando atentamente aquele que detinha então a atenção de (quase) todos os presentes. Na frente de uma multidão de sabe-se lá quantas cabeças sobre um minúsculo palco de menos de 5m de comprimento, o rapaz falava sobre os três anos passados juntos com todos os que estavam atrás dele e também à sua frente, os chamados mestres. Falava sobre as experiências boas e ruins, os abraços e beliscões, as gargalhadas e os muitos minutos de sono. Falava sobre como cada um daqueles tinha sua própria importância, formando um tudo excepcional.
Enquanto aquelas palavras povoavam o ambiente externo, a garota, numa posição desconfortável, deixou os olhos vagarem e ecoarem dentro dela milhões de outras reflexões, das quais muitas esqueceu-se logo depois, como sempre ocorre. Mas ainda se lembra que refletiu sobre o próprio garoto que tinha o microfone em mãos, sobre a garota dos cachinhos ao lado dele, sobre o menino de origem oriental que abraçava-o, sobre o outro rapaz que então passou a proferir da própria boca o sentimento dos outros, sobre a menina que havia cantado estonteantemente a momentos atrás, sobre o pequeno professor japonês de química que tinha os olhos marejados, sobre todos os outros professores que sorriam de orgulho e saudade precoce. Lembra-se que refletiu sobre ela mesmo. Lembra-se de ter refletido sobre tudo e todos, coletiva e individualmente.
E lembra-se de quase ter caído ali no meio. Toda aquela gente, apesar de muito querida, provocou nela uma sensação de calor desagradável. Mas não era só isso, toda aquela reflexão a fez sentir todo o medo novamente. O medo de não ver nenhuma daquelas faces outra vez na vida, o medo de esquecê-las, ainda que parcialmente. O medo simplesmente de não lembrar de todos eles todos os dias, como então o fazia. O medo deles não lembrarem dela, afinal, que tinha ela demais? O medo de esquecer muitas das lições aprendidas, não só no quesito educacional. O medo, aquele medo que numa trovejada transformou-se numa nostalgia precoce quase que arrebatadora, fisgando-lhe os joelhos e a fazendo quase cair. Todavia, não caiu.
Não, não caiu. A moça decidiu resistir. Sim, estava morrendo de medo e já sentia a garganta arder, premeditando o sofrimento que viria dali a um semestre, toda a nostalgia e a dor que sentiria ao deixar seus companheiros tão fundamentais, ainda que se fizessem promessas de saídas e passeios juntos, querendo esconder o que todos sabiam ser inevitável. Mas decidiu manter-se de pé. Não deixaria o medo detê-la, não o deixaria impedi-la de aproveitar o resto do ano. Ah, não, isso nunca.
Aproveitaria aquele ano como nunca aproveitara qualquer outro, principalmente dadas as tais circunstâncias. Aproveitaria todos sem arrependimentos, empanturraria-se deles até querer vomitá-los. Faria como que uma reserva de lembranças de todos eles, se lembraria de tirar inúmeras fotos e gravar muitos vídeos. Porque o que mais temia na vida era perder amizades tão importantes como aquelas. E faria de tudo para jamais ver aquele medo tornar-se real.
E quando todos se dispersaram, após ela ter abraçado o amigo que havia dançado um tango anteriormente, deu-se por conta que a fisgada que sentira a alguns instantes atrás não havia sido causada somente pelo medo e nostalgia antecipados, mas também por amor. Daqueles inexplicáveis e excessivos. Amor de amigo, de cartas e cartas escritas com canetas coloridas espalhadas na cama.

Natália Albertini.

Um comentário:

Lucy disse...

Escapei de um jogo chato de futebol só pra ler o seu texto. Não me arrependo nem por um segundo :')
Porra Natá, me fez chorar aqui ok? E conseguiu transmitir todo o medo que eu também sinto (só que o seu é muito mais comedido).
As suas palavras me deixaram sem fôlego, tipo aquela sensação "soco no estômago", saca? e eu achei que não podia ser mais genial, dai li isso: "deu-se por conta que a fisgada que sentira a alguns instantes atrás não havia sido causada somente pelo medo e nostalgia antecipados, mas também por amor. Daqueles inexplicáveis e excessivos. Amor de amigo, de cartas e cartas escritas com canetas coloridas espalhadas na cama."
Então, só agradeço por ser a minha Natá, minha escritora querida, sempre. E pode escrever um imlhão de textos, lerei todos :*