terça-feira, 7 de julho de 2009

Entre e tome uma xícara de café, mas por favor não me pergunte da Deusa.

Abriu a janela e deixou os raios de sol inundarem o chão lígneo do cômodo. Apoiou-se no parapeito e aproveitou para fazer um attitude, acompanhando os últimos segundos da música clássica que ressoava por todo o seu quarto, proveniente das grandes caixas sonoras.
Depois disso deu uma pirueta e sentou-se graciosamente na cadeira de rodinhas, girando-a, ficando de frente para a tela do computador, de frente para a tela branca do Word que normalmente lhe parecia tão deprimente, já que as palavras demoravam-lhe a sair e os dedos pareciam tropeçar nas teclas.
Fazendo jus ao colã, à meia-calça e às sapatilhas que vestia, ajeitou-se numa posição quase que felina, aparentemente impossível para qualquer um que não fosse bailarino há tantos anos quanto ela. Tirou o elástico do cabelo e tornou a prendê-lo, melhor que anteriormente.
Começou a digitar, os dedos dançando, como ela o havia feito alguns momentos atrás, sobre o teclado, simplesmente fazendo jorrar na tela palavras que nem a mente dela tinham consciência, vinham direto do peito.
Pausou por um momento e pegou a caneca que jazia ao lado do monitor, cheia de veneno vicioso que ela costumava chamar de café. De qualquer jeito, servia para aquecer-lhe o corpo, espantar aquele frio de julho que a assolava assim que ficava imóvel por um ou dois segundos.
O telefone tocou. Deixou que gritasse por duas ou três vezes e então atendeu, despreocupada, colocando a caneca de volta na mesa:
- Alô?
- Oi, Lolô, é a Bi! - um sorriso do outro lado da linha acompanhava a voz tão familiar da amiga de faculdade.
- Oi, Bi - e retribuiu o sorriso vocal.
A conversa durou uns bons vinte minutos, quem sabe mais. Falaram sobre amenidades e sobre a próxima sexta-feira, afinal, eram universitárias, não podiam ficar em casa numa noite de sexta. Depois de tudo acertado, despediram-se:
- Então tá, a gente se vê amanhã.
- Nos vemos, sim.
- Ah, e...?
- Sim?
- Não esquece de levar as sapatilhas que deixei ai, por favor.
- Tudo bem - respondeu, lançando um olhar às sapatilhas pretas já embrulhadas num canto do aposento. Ela não se esqueceria de levar.
- Até amanhã.
- Até.
Clique.
Após terminar tudo o que tinha para escrever, sorveu os últimos goles de café enquanto esperava a impressora terminar de trabalhar. Assim que acabou, pegou as folhas, desligou o computador e passou ao cômodo ao lado.
Apesar das cortinas serem escuras e estarem fechadas, era possível enxergar claramente as poças escuras e já secas de sangue no chão de madeira clara. Colocou as sulfites digitadas sobre a cama de lençóis revirados e aproximou-se bastante do rosto ainda congelado numa expressão de agonia que quase lhe provocava piedade.
Enfiou a mão direita por debaixo do pescoço do rapaz que ali jazia e, pela nuca, levantou-lhe a cabeça, trazendo seu rosto ainda mais para perto. Olhou-o bem aos olhos e sorriu delicadamente.
Sem sair daquela posição, puxou as folhas com a mão livre e passou a ler algumas passagens pelo canto dos olhos, revezando o ato com algumas olhadelas para o recém-apresuntado. Depois de terminar a última página, deixou-lhe a cabeça cair ao chão novamente e, divertida, informou-lhe:
- É, eu sou mesmo uma boa escritora... Descrevi seus últimos minutos exatamente como foram. Não sou um orgulho mesmo? - e riu para si mesma, na cara do infeliz - Eu já te dou o funeral adequado, meu bem, espere só um instantinho.
Levantou-se e abriu uma gaveta do móvel também lígneo, tirando dali de dentro uma pasta comprida e avolumada de cor vemelha. Puxou um clips da pequena caixinha também dentro da gaveta e afixou as páginas que tinha em mãos na ordem correta. Abriu os elásticos da pasta e ajeitou suas palavras ali dentro, misturando-as com todas as outras.
- Ah, meus amores... - suspirou, olhando afetuosamente para a pasta enquanto a fechava.
Ali dentro guardava seus relatos de todos os seus "encaminhados", como ela os chamava. Guardou a pasta novamente e fechou a gaveta que ainda seria aberta incontáveis vezes.
Ajeitou o corpo que jazia ali e começou a puxá-lo pelas pernas para a porta dos fundos. Nem sentindo incômodo de puxar todo aquele peso graças a toda sua satisfação de estar mandando outro escolhido para o caminho correto, arrastou-lhe pela escadinha da varanda e ouviu sem se importar os baques surdos que a cabeça do defunto emitia ao bater contra os degraus. Arrastou-lhe ainda por quatro ou cinco metros até alcançar a margem do rio que passava aos fundos de sua casa.
Antes de jogá-lo ali, fez o que fazia com todos os seus bem-aventurados: ajoelhou-se, sem pensar que podia rasgar a meia-calça já manchada de visco rubro humano, fechou-lhe as pálpebras e beijou-lhe a testa, sorrindo:
- Vá, querido, vá e dê um alô à Deusa por mim assim que acabar a queda d'água. Diga-lhe que depois daqui a alguns anos, quando eu terminar essa minha missão, eu mesma a encontrarei.
Andou de gatinhas na grama e empurrou-lhe pelos ombros até ver a própria correnteza se resposabilizar pelo encaminhamento dele.
E ali, voltando para casa para limpar o chão e tomar um belo banho, entre piruetas e pulos balarinísticos, mal sabia ela que a algum tempo dali ela mesma seria encaminhada por outro fanático.
Até hoje os que por ali vivem sentem a presença da magia da tão oculta Deusa, mas se recusam a falar tanto sobre ela quanto o incrível caso de Lorena. Evitam o assunto assim como os adultos evitam a matéria "De-onde-vêm-os-bebês-papai-e-mamãe?" ou "Por-que-meus-amiguinhos-ficam-dizendo-que-Papai-Noel-não-existe?".

Natália Albertini.

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