quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Keep a straight face.

Me pego outra vez derramando mares, enxarcando essas palavras aristotélicas que lia há pouco, sob mim.
Tudo isso porque tirei o telefone do gancho, disquei os números de sua casa e só depois do terceiro toque percebi a gravidade do que estava fazendo.
A imagem da casa vazia, escura e fria me molha a mente. Aquele silêncio imperial sendo quebrado pelo toque estridente do telefone, minha voz te chamando desesperadamente.
Trêmula, ponho o telefone de volta no receptor.
Meu peito se afunda, sob uma pressão absurda; meu abdôme se contrai; meus lábios se curvam pra baixo e meus olhos expelem todo esse Oceano Atlântico.
Sabe, tenho levado minha vida numa maré de indiferença cinza.
Por vezes umas pinceladas de amarelo claro, conforto da minha cama, outras de rosa claro, meus alunos rindo, e até mesmo certo laranja claro, minha irmã sorrindo pra mim e me chamando de idiota.
Entretanto, isso é tudo. Pois é, estou toda tons pastéis.
E, claro, preta e branca.
Essa dor e essa ausência.
Sorrio, sim. Rio e converso.
Passo bem o dia, vestindo sua blusa para ir à faculdade, com a gola da camisa pra fora, cheirando as mangas de lã de vez em quando.
Dou minhas aulas, ajudo alguns, divirto outros.
Mas é só chegar em casa, e essas ondas batem em meus rochedos de novo.
Não tenho levado uma vida emocionante, de braços levantados numa montanha-russa, como adoro. Não tenho muitos amigos, se considerada a verdadeira definição disso pra mim. Alguns bons colegas, vá lá, mas não amigos.
E talvez por minha culpa, mesmo. Tenho me afastado de tudo e todos, tenho me isolado aqui, só com as lembranças de você e de sua casa.
De sua unha rachada no polegar esquerdo, de sua garrafa de água sempre presente, de seus grossos óculos cobrindo sues olhos de guri, de você me chamando de menina, de você.
Não tenho grandes motivações para acordar no dia seguinte, nem pra sequer ir deitar.
Só de pensar que amanhã terei de passar quinze horas fora de casa, forçando essas pobres pernas a me carregarem e esses pobres lábios a forjarem sorrisos e palavras que não deveriam ser produzidos, perco a vontade de ir dormir.
Me encontro ainda caindo naquele abismo, esticando meus braços, tentando encontrar onde me agarrar, em vão.
Não consigo ser inteira, minha lua não brilha em cada lago.
Os conflitos alheios me parecem tão míseros e desprezíveis no momento. As pessoas me falam coisas e eu finjo me importar, sendo que dentro, tudo o que me passa pelas pálpebras são lembranças suas e dessa dor incessante.
Ontem, via internet, meu pai me perguntou como eu estava e eu disse "bem".
Tive um forte impulso de meter a cabeça na parede, pegar um ônibus e ir até lá para abraçá-lo, órfão. De dizer que não, que não está nada bem, mas que eu continuo aqui, as usual.
E então de fazer o mesmo com meus três tios.
De dessa vez, eu ser o porto-seguro deles.
Mas vô, cadê você pra me ensinar como fazer isso?

Ps.: e todo dia acordo com essas pálpebras inchadas. E quando me perguntam, tenho a pachorra de dizer que é algum tipo de alergia...
Ps2.: Thks to Pessoa.
Natália Albertini.

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