domingo, 26 de dezembro de 2010

Porta anti-ruídos.

Esquálidos e poucos raios de sol entravam pela frestas que a cortina deixava, em feixes.
A manhã beirava as cinco horas.
Os lençóis alaranjados de algodão egípcio se espalhavam pela cama larga, onde, silencioso, um corpo jazia, respirando preguiçosamente, desacordado.
Ela estava sentada aos pés do colchão, com os joelhos dobrados e os braços largados sobre eles. Os olhos fixos no chão, firmes. O cabelo caindo-lhe insistentemente ao rosto.
Uma das mãos alcançou-lhe o semblante, dando apoio ao queixo.
O uniforme bem alinhado dava àquela comissária um ar elegante e aristocrático.
As malas, prontas, esperavam à porta.
Ela se virou, lançando um longo olhar ao rapaz ainda adormecido.
Respirou fundo, inalando a atmosfera sonolenta, tranquila e aconchegante que ele exalava.
Cada extremidade de seu corpo urgia para que ela se jogasse sobre ele, o acordasse e beijasse aqueles lábios tão bem delineados. Urgia para que as quatro mãos se encontrassem, para que as pernas se entrelaçassem e para que os olhares se rendessem novamente.
Ela, contudo, se conteve.
Engoliu o nó de saliva que se fez em sua garganta e, dona de si, levantou-se nos saltos.
Dolorosamente, suas pálpebras se fecharam e seu corpo se impulsionou para a porta.
Sem um último olhar a Fernando, Alberta partiu.
Sem ruídos.
Sem despedidas.
Sem a esperança de voltar.
Sem ele.

Natália Albertini.

2 comentários:

Leila D. disse...

Vim retribuir a visita e comentário tão gentil!
Despedidas são doloridas, não? É tão difícil ir quando a gente só quer ficar....
Mil beijos, já estou seguindo. Gostei bastante daqui.

Rafa. disse...

Uma das coisas mais bacanas do teu texto é descrever perfeitamente um momento. Se ele aconteceu ou não... Isso não importa, mas o que importa é que para quem lê... Aquilo é muito real.