segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Uivos.

Ela fica ali, jogada àquele gramado minimamente verde.
Tem nos ouvidos pequenas coisinhas brancas que parecem emitir algum som.
E pensar que antes ela só gostava da minha voz...
Ela se joga ali, com um trecho da cintura de fora, achando que pode me provocar sem ter o troco, ora essa!
Dedilho, então, sua franja, bagunçando-a.
Ela, sem nem sequer destrancar os cílios, arruma os cabelos alaranjados de volta e retorna à inércia.
Irritado, balanço o topo das solitárias árvores que a cerca, fazendo uma ou outra folha cair aqui e ali. Ela nada, deixa os lábios ali, meio-abertos, me tentando a tocá-los. O faço, secando-os, mas ela passa a língua por eles, umedecendo-os novamente.
Passo meus braços, suaves, por seus quadris, arrepiando-a.
Ela, que ontem atirou desesperos e desaforos a mim, como um tapa em meu rosto, sorri de canto e, sem muitos movimentos, faz com que o som daqueles pontinhos brancos aumentem.
Não!
Você deve ouvir A MIM!
SOMENTE A MIM!
Ora, que penso eu?
Me acalmo, a deixo em paz por hoje, pois sei que por mais que eu uive à sua janela ou lhe despenteie os cabelos, ela nunca me verá.

Natália Albertini.

2 comentários:

Roberta Mendes disse...

E se nos concedem o foco de um microscópio, que surpresa não terão ao descortinar universos por tras de nossos detalhes.

Marcel Luper disse...

...tem bons escritos aqui... onde posso ler mais?

Marcel Luper
Editor

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