Tinha escrito umas boas duas páginas, mas não gostei e deletei tudo. É isso que chamam de escrever, certo? Natália Albertini.
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Dorme, Ná. Mamãe te chama quando chegar em casa.
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Fim de festa. Minhas pálpebras pesam, difícil resistir. Estendo meus braços gordinhos na mesa enfeitada e adormeço. Trevas. Pontinhos de luz penetrando meus cílios. Papai me carrega enquanto se despede de todo mundo. Estou cansada, finjo que estou completamente adormecida, com o pescoço mal ajeitado, a cabeça jogada no ombro dele e os braços largados ao lado do corpo de qualquer jeito, enquanto meu par de All Stars número 26 balança nas mãos de mamãe, a meu lado, despedindo-se de titia. Papai me leva até o carro. Quando chega, com muita agilidade abre uma das portas traseiras e me ajeita no banco. Fecha a porta e dá a volta no carro, tomando seu posto de motorista enquanto mamãe ajeita-se no banco do passageiro com as incontáveis Tapawers contendo pedaços de torta, salgadinhos, brigadeiros, bolos e afins. A viagem de volta pra casa começa. Me posiciono da melhor forma para um sono bem aproveitado. Porque o melhor sono é esse. Esse do banco traseiro desse Santana azul, quando tomo conta...
Areia.
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Sacada preenchida por brisa. Rede balançando sutilmente, no embalo das ondas que ecoavam ao longe. Um braço pendurado para fora, os dedos enganchados na orelha de um livro. Silêncio marítimo. Cheiro salgado e respiração tranqüila. Sonhos em preto leve, delicado. Louça no escorredor de pratos. Mesa arrumada. TV desligada e lápis no chão, ao lado do sofá. Sono envolvendo todos os corpos. Era assim que eram observados: com enorme ternura e carinho. Quanto ao corpo que dormia na rede, era tão corpo que passava a ser só espírito, leve, quase que flutuando. As preocupações tinham sido levadas embora. Só sobrava aquele gosto de saliva seca e palavras herméticas de Clarice Lispector nas pálpebras agora fechadas, absorvendo as idéias e se identificando cada vez mais com elas. Dezembro. Meus dezembros... Natália Albertini. Ps.: dica de música de acompanhamento: "Exploration", da trilha sonora da Coraline que, a propósito, é um filme lindo.
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O mar lambendo a areia, o sorvete, o açaí, Perfil 2, Imagem e Ação, os filmes, o sofá-cama aberto, a rede, a varanda, a brisa, o chuveiro, a beliche, a cozinha apertadinha, o ventilador de teto da sala, o apartamento no segundo andar, as escadas, o elevador tão antigo, os bancos na entrada do prédio, o portão, o asfalto quente, a árvore da esquina, o gótico, o calor, o amor platônico de Havaianas, o pastel, o protetor, a Fê reclamando da areia grudada no corpo, as caminhadas, o calçadão, as pessoas, as pranchas, as estrelas, os carros com música alta, a Rio de Janeiro, chegar tarde depois de andar na Pitangueiras, as pedaladas infinitas, o chuveiro lá de baixo, a padaria, a farmácia, as sonecas no meio da tarde depois de tomar muito sol e nadar, o vôlei ao pôr-do-sol, os convites a umas voltinhas num invejável Eclipse, os caras-enchidas, as naves-espaçonaves etc. De tudo isso sinto muita falta agora. E só tô torcendo pra esse feriado continuar com esse tempo maravilhoso pra poder volta...
O que os astrônomos diriam se tratar de um outro cometa.
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Acho que dizer que eu estou dilacerada é um mero eufemismo. Desde quarta-feira, venho experimentando um humor ótimo. Os dias esquentando, o Sol despontando na minha janela, meus alunos satisfeitos, aumento de carga horária, confiança, estudos demasiados e o que mais importa, satisfação minha, felicidade comigo mesma. Hoje não foi diferente, mas o sonho de ontem á noite me mostrando seu rosto pela zilionésima fez com que uma pequena pontada de sei-lá-eu-o-que me perturbasse a manhã toda. Não que tenha feito meu humor mudar, mas desceu um ou dois degraus. Agora chego em casa e esse sentimento de nostalgia adicionado a certa raiva (acho que é isso, não consegui definir) me faz olhar algumas fotos suas atuais. E o que mais me dói é que você é completamente outra pessoa e eu, aparentemente, já não faço mais parte da vida dela. Sua face parece mais emblemática do que nunca. As sobrancelhas meio caídas, bem como os ombros. E o que me machuca, o que me dilacera é saber que eu não sei mais te d...
Spinning Heads (num movimento centrípeto acelerado...Não, espera...)
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Outro de meus pequenos prazeres: ficar à deriva, vegetando (briófitas não tem vasos condutores...Pteridófitas, angiospermas e gimnospermas são traqueófitas) na frente do computador, simplesmente ouvindo Coldplay, sem sequer balbuciar os versos (redondilho menor, cinco versos, rendondilho maior, sete) que sei de cor. Mas o que acompanha esse meu pequeno deleite (leite...lactose...) hoje não é agradabilíssimo (superlativos): perceber o quanto medo, desprezando as tais medidas preventivas, esse semestre já começou a me dar. Num misto de cansaço, reflexões excessivas, nostalgia precoce e, admito, certa empolgação, já que sou uma das adeptas ao modelo de vida sem-tempo-para-nada, me deparo com uma maré vermelha que é causada pela proliferação das algas... Ai, não, calma. Digo...me deparo com uma maré de sentimentos antagônicos, porém complementares (sim, complementares...as raízes imaginárias sempre vêm acompanhadas de suas conjugadas). Não sei se isso tudo é por ser adolescente, mulher (é,...
F.
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Ela afastou os lábios dos dele, olhou-o aos olhos e fez um beicinho, com cara de pensativa. Ele se manteve calado, apenas a observando, admirado, enquanto ela se ajeitava em seu colo. Até que ela quebrou o silêncio: - Você tem fumado, né ? Ele abaixou os olhos, como que envergonhado, e enfiou a mão no bolso. - Não faz isso, você acaba com seus pulmões... Ele tirou a mão de dentro do bolso e mostrou o último cigarro que tinha por perto. Com um movimento dos dedos, quebrou o pequeno objeto bicolor e o jogou na lareira. Ela fixou os olhos na lenha e os deixou ali, repassando a cena mentalmente. Tinha vontade de rir e ao mesmo tempo de beijá-lo. Pensou em como aquela cena poderia dar um filme se eles se comunicassem melhor, quem sabe até falassem a mesma língua, se a lareira estivesse acesa e se um maquillador tirasse algumas sutis imperfeições de seus rostos. Entretanto, aquele ato fora tão...tão...particularmente engraçado na vida real. Foi delicadamente cômico , e lhe provocou a repe...