quarta-feira, 12 de agosto de 2009

F.

Ela afastou os lábios dos dele, olhou-o aos olhos e fez um beicinho, com cara de pensativa.
Ele se manteve calado, apenas a observando, admirado, enquanto ela se ajeitava em seu colo. Até que ela quebrou o silêncio:
- Você tem fumado, ?
Ele abaixou os olhos, como que envergonhado, e enfiou a mão no bolso.
- Não faz isso, você acaba com seus pulmões...
Ele tirou a mão de dentro do bolso e mostrou o último cigarro que tinha por perto. Com um movimento dos dedos, quebrou o pequeno objeto bicolor e o jogou na lareira.
Ela fixou os olhos na lenha e os deixou ali, repassando a cena mentalmente. Tinha vontade de rir e ao mesmo tempo de beijá-lo. Pensou em como aquela cena poderia dar um filme se eles se comunicassem melhor, quem sabe até falassem a mesma língua, se a lareira estivesse acesa e se um maquillador tirasse algumas sutis imperfeições de seus rostos.
Entretanto, aquele ato fora tão...tão...particularmente engraçado na vida real. Foi delicadamente cômico, e lhe provocou a repentina vontade de rir.
Voltou o rosto para o olhar dele e, desta vez, se prendeu ali. Ora, que se dane se havia sido piegas. Fora um ato de altruísmo e, ao mesmo tempo, auto-respeito dele.
Ela sorriu, meio envergonhada e meio grata, e esperou a reação dele. Ele finalmente sorriu para ela, ajeitou-a novamente em seu colo, a abraçou a deitou a cabeça no ombro direito dela, respirando devagar.
Ela afagou-lhe os cabelos negros e sussurrou-lhe um quase que indecifrável "gracias" ao ouvido direito dele. Beijou-lhe a nuca e passou a lhe fazer um cafuné de leve, enquanto o observava adormecer como uma criança de cinco anos o faria.
Respirou fundo e agradeceu por tudo estar acontecendo ali. E, principalmente, por tudo não a seguir até em casa, era o que mais a deixava contente, embora parecesse um tanto quanto insensato para outras pessoas.

Natália Albertini.

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