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Colo.

Ela deu dois pequenos passos pra trás e encaixou o corpo nas pernas meio abertas dele, em jeans . Sua cintura encostou no torso dele, mais baixo, devido à altura de onde ele se sentava. Eles se olharam e trocaram uma ou outra palavra. Ela sentou-se em sua perna direita, de lado, cruzando as próprias pernas, com um dos braços passando por seu latente pescoço, revirando-lhe os cabelos de leve. Ele enlaçou-a com ambos os braços. As mãos iam uma ao joelho mais alto dela e a outra, à coxa não tão coberta pela saia. Ele falava com um amigo sentado ao lado. Ela, ajeitada no corpo dele, olhou para frente e deixou-se encantar com as luzes multiplamente coloridas do espaço. A música batia de leve em suas espáduas, e as mãos dele, em suas pernas. Sorriu pelo clima da noite, satisfatoriamente ébrio. Natália Albertini .

Antebraço.

Ele se escorava à porta do carro, de vidros escuros e intransponíveis, no banco couriáceo traseiro. No meio de suas pernas abertas, as costas dela escoravam-se em seu peito desnudo. A cabeça de cabelos longos pousava em seu ombro esquerdo. As mãos dela lhe beliscavam a perna e lhe puxavam os cabelos da nuca. Ele tinha antebraços fortes e braços mais fortes ainda. Uma de suas mãos apertava o peito esquerdo dela, por baixo da camiseta. Ela abriu os olhos por alguns instantes. Olhou o volume que a mão dele fazia sob a camiseta. Seus olhos continuaram a descer. Viu seu abdôme desnudo, com um antebraço dourado, de veias visíveis, com um pulso largo e pesado, adentrando-lhe a calça, pressionando-lhe mais abaixo. Respirou fundo e fechou os olhos novamente. Ele lhe sussurrou alguma indecência ao pé do ouvido. Seu peito subiu. O arrepio desceu. Ps.: tava faltando uma baixaria aqui, né? Natália Albertini.

Aterrisagem de emergência.

Respirei fundo. Cerrei as pálpebras, certa de que um oceano me subiria aos olhos. Errei. Não subiu. Inspirei mais uma vez e soltei o ar devagar. A consciência de que toda a euforia das últimas semanas foi mera ilusão pesa sobre meus ombros. Pode ser que amanhã eu acorde e me iluda novamente, pode ser que ache que estava louca hoje, assim como neste momento acho que ontem estava maluca. Nesse pequeno e novo âmbito da minha vida, o qual me recuso a nomear, as tentativas têm sido em vão, tudo ainda me parece artificial e sempre sinto que o universo não me dá em troca com tanta paixão quanto eu. É, e mais uma porta se fecha. Dizem que deve-se tentar todas as portas, afinal, uma delas há de estar aberta. E se eu não quiser isso? Acho que por enquanto tenho a simples vontade de continuar nesse corredor imenso sem forçar qualquer maçaneta. Detesto acima de tudo meus momentos de desilusão e aterrisagem no mundo real como este, mas me são naturais e intrínsecos. De teimosa que sou, sigo desilu...

Contra as leis

Sete horas da manhã. Estação cheia. O fluxo de pessoas vai para São Paulo, é notável, não é preciso perguntar individualmente qual seu destino, afinal, as escolas, universidades, maiores concentrações de emprego, comércio e oportunidades estão lá, no centro, na cidade que não pára. Vê-se o trem chegando, preparam-se, bolsas a frente do corpo, posição de quem vai para a luta. Primeiro desafio do dia: Entrar no trem. Em meio a empurrões, manobras com o corpo, xingamentos, desafiam as leis da física e provam que não só dois, mas sim vários corpos ocupam o mesmo lugar. A porta se fecha e um pensamento vem à mente: “ Constituição da República Federativa do Brasil de 1988” lembra-se, “Artigo 1, A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos... parágrafo 5, a dignidade da pessoa humana.” A dignidade da pessoa humana. Não conseguia encontrá-la em meio ao apert...

A língua.

Silêncio e a mais pura escuridão. Tentou ao máximo calar a respiração que, ofegante, parecia alta demais ali debaixo, poderia denunciá-lo a qualquer momento. O chão poeirento debaixo da cama lhe fazia querer espirrar. Não, agora, não! Torceu o nariz e deixou os olhos, igualmente irritados, bem abertos. Prendeu a respiração por segundos para apurar os ouvidos. As últimas passadas haviam sido há mais de seis segundos. A adrenalina lhe corria as veias desenfreada, ansiosa, comendo-lhe o sangue. Por sorte, quando havia descido do colchão até ali, o edredon havia descido um pouco, cobrindo seu esconderijo - o mais seguro que pode achar em meio ao desespero dos passos pesados no piso ebúrneo . Uma brisa gelada correu pelo vão deixado entre a coberta suspensa e o chão. Seus pulmões congelaram, seus olhos arregalaram-se ainda mais, a respiração cessou por completo. O edredon começou a ser erguido. Um dedo gelado pecourreu -lhe o corpo do fim da coluna até sua nuca, fazendo-o estremecer. O ed...

De ponta-cabeça.

Ele forçava suas pernas para fora. Ela apoiou-se sobre os braços na pia e envergou o pescoço, deixando a cabeça cair pra trás, encarando seu reflexo embaçado de ponta-cabeça. A pressão no meio de suas pernas fazia a parte inferior de sua virilha se esquentar surpreendentemente. Deixou a cabeça cair ainda mais e então o viu. Ela sentia o peito dele roçar sua cintura e seu abdôme. No reflexo, viu aqueles olhos manchados de vermelho e aquela boca com dentes sujos de visco rubro escalando o meio de seus seios. Ele fincou os caninos ali e fez o sangue escorrer por seu corpo desnudo. Ela não conseguia levantar a cabeça. A sensação simultaneamente gelada e quente a dominava, deixando-a mole. Apertou os próprios olhos e ficou vendo o reflexo ensanguentado e de cabeça para baixo comer-lhe. Natália Albertini.