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Um Outro N.

Ela estava a meu lado direito, com um copo de cerveja em mãos, num gesto espelhado ao meu. Conversávamos sobre alguma amenidade passada em mais um dia de escritório. Ela tinha o cabelo repicado, e os olhos densos, cheios de experiência, apesar da pouca idade. Tinha também um ar meio sarcástico, que me fazia lembrar alguém... O ambiente era barulhento, porém mais claro que de costume. Como sempre ela tinha alguma peripécia pra me contar, situações que chamávamos de "Natalhisses". Experiências que só nós duas poderíamos entender, afinal, o nome só nos pertencia. E, mais do que isso, éramos a perfeita personificação do tal. Ela me fazia rir muito. Nos conhecemos há pouco mais de um ano, mas a sintonia agora era tamanha que... Me espantava. Não éramos melhores amigas, porque a definição disso que normalmente nos vem à cabeça é alguém que te conhece há muitos anos e com quem você já partilhou muita bagagem. Esse não era o caso ali. É só que... Entre aqueles copos de ce...

A Ponte.

Saiu do trem com a pressa e o cuidado habituais, segurando a bolsa com uma mão e a protegendo com outra. Passou as catracas segurando o vestido para que não levantasse e pegou a ponte que levava para o parque. Já passavam das dez. O caminho era escuro e sua única companhia era sua sombra trêmula e algumas cigarras. A ponte devia ter cerca de 1km, mas ela estava acostumada com sua extensão. A estação de trem ia ficando cada vez mais pra trás. Seus passos no chão acimentado eram ásperos e solitários. A bolsa parecia pesar mais agora, mas com certeza era só o peso de um longo dia de trabalho. O vento uivou mais forte e uma lâmpada a seu lado, no gramado da beira da ponte estourou, sobressaltando-a. Ela deu um leve pulo para a esquerda e sentiu o coração pular uma batida. Se concentrou e voltou a andar. Ainda deviam faltar uns bons 700m. Ela só queria chegar em casa. Seus pés a estavam matando, só queria um bom banho e sua... Schps. Um silvo. Ela não parou de andar, mas olhou ...

Mordedor.

Ele tinha os cabelos escuros e pesados, um travesseiro para meus dedos. Os olhos, embora ele não gostasse, docemente esverdeados e fixos na animação que passava na TV. Algo sobre animais de zoológico querendo fugir com o circo. Ele havia se aninhado em meu colo e sua cabeça repousava ali. Seu peito subia e descia numa respiração ritmada e tranquila. Eu o olhava com enorme afeição. Um sentimento que tendia a me transbordar pelos olhos e me apertar a garganta. Ele virou o rosto e aqueles olhos que me afogavam como um rio faminto me encararam, curiosos como os de um menino. - Que foi? - é claro que ele estranhou meu encantamento, eu devia ter ficado quase dez minutos encarando sua beleza. - Ah, nada - respondi. Ele levantou a mão direita e me apertou o nariz, num gesto de carinho. Voltou a atenção à TV. Eu sorri e engoli minhas lágrimas de carinho. A única pessoa do mundo que expressa amor por meio de lágrimas, e ele escolheu bem a mim. Meu coração se retorce de felicidade ao ...

Macio.

O sol ia alto no céu naquela manhã. O cheiro da maresia e de protetor davam o clima. As ondaa batiam ansiosas nas pernas de todos aqueles que iam saudar o mar. Escutava conversas, sem ouvir exatamente o que se falava. Estava de bruços na canga, o cabelo molhafo às costas, o sol lhe lambendo as espáduas e a cintura, o calor fazendo a pele macia e bronzeada. Um sorriso aos lábios. Sua projeção de futuro era tão longíqua quanto o que iria comer no almoço. Ps.: vem, férias! :( Natália Albertini

Cabana.

O sol matinal se espreguiçava pelo chão do cômodo. O sofá-cama jazia quieto, sob o ventilador que rodava lânguido. Ele dormia calmo, uma coberta fina sobre o corpo, e um semblante de quem sonhava longe dali. E em paz. Já batiam quase nove horas. Me aproximei e sussurrei bem baixinho que acordasse, a manhã já batia à janela. Meus cachos se estenderam por cima de sua cabeça, imergindo-nos naquele local secreto que só nós dois poderíamos ver. Beijei a pintinha em sua pálpebra direita, ainda fechada e sonolenta. Ele se alongou devagar e demorou a abrir os olhos, mas quando os abriu, fixou-os logo em mim. Eu não podia fazer menos que abrir um sorriso que pudesse abraçá-lo por inteiro. Ele, ainda meio sonhando, me agarrou a mão esquerda e a pôs debaixo de seu travesseiro, como para que não fugisse. Em pensamento, disse que não. Não vou fugir. Da sua, Natália Albertini.

Laranja.

O barulho lânguido da água se acalmando e a luminosidade escassa me envolviam. Acima da superfície, somente meus olhos. Abaixo, o corpo inteiro imerso naquela massa morna e líquida. Ao longe, o som dos animais notívagos se escondendo em arbustos. Observei o topo do manto de água balançar devagar. Afundei e olhei à direita. Um enorme e majestoso crocodilo me encarava, preguiçoso. Seus olhos brilhavam arroxeados, e a cauda jazia estática. À minha esquerda, mais deles se aproximavam, nadando rápido, assustados. A massa de água me empurrou inevitavelmente para mais perto de onde o primeiro deles deitava. Ao tentar me esquivar, percebi que ele já havia fugido também. Com toda a rapidez que se pode ter no ambiente submerso, voltei à esquerda. Das profundezas daquele canto, a água se deslocava ainda mais rápido e mais forte, me empurrando, e dois pontinhos alaranjados, mais brilhantes que o dos crocodilos, se aproximavam numa velocidade nauseante. Tomei impulso nos azulejos atrás d...

Meu.

O barulho no apartamento era alto demais, o anfitrião talvez até recebesse uma multa por isso. O ambiente, contudo, era delicioso. Vozes animadas, clipes na TV e muita comida e bebida à mesa. Já passavam das três da manhã, e seu organismo que ainda se comportava como o de uma criança clamava por uma cama. Tinha, entretanto, o melhor travesseiro sob sua cabeça de olhos já fechados: o ombro direito dele. O ouvido direito dela captava todo o som da festa, animada demais para aquela hora da madrugada na opinião dos vizinhos. O esquerdo ouvia com carinho as batidas do coração dele sob a polo preta. De cada lado da cabeça, um extremo: bagunça e tranquilidade. O corpo que se fazia de cama para ela se mexia um pouco, suas cordas vocais vibravam com um tom divertido. Ao mesmo tempo, o braço direito dele a envolvia, acariciando suas costelas e espáduas. O mais puro afeto a inundou. Ela o abraçou mais forte. Sentia que... Não. Ela sabia que, se quisesse, poderia dormir naquele omb...