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Smile, Sunshine.

Haviam duas camas, mas eles se espremiam numa só. A noite tinha sido turbulenta, mas o Sol os poupou, invadindo o quarto pela sacada com uma luz mais fraca que o habitual. Ela abriu os olhos de leve e checou seu travesseiro: um braço forte, tatuado e muito aconchegante. Ela se empurrou um pouco pra trás, se encaixando melhor no corpo atrás do seu, que reagiu abraçando-a mais forte. Era um corpo grande, quente, e tinha um cheiro que ela reconhecia de muito longe. Aos poucos, ele também despertou. Apertou-a nos braços e beijou-lhe a nuca, enroscando suas pernas na dela. Sua mão, pesada, se precipitou por dentro da blusa dela, a única peça que aquele corpo menos quente vestia, acariciando suas costelas e peitos. Depois, desceu novamente, encontrando seu umbigo e, então, o quadril exposto e branco. E então, sim, um pouco mais pra baixo e... Ela se contorceu e gemeu baixo, abrindo o primeiro sorriso da manhã. Foi então sua vez de usar as mãos e fazê-lo sorrir. Por debaixo do cobe...

Marshmallow

O dia era bastante frio pra uma manhã de maio. Uma chuva fina e insistente batia nos vidros do carro, como se um domingo já não fosse tedioso por si só. Todavia, aquela domingo não ia tão monótono assim... Ele dirigia e defendia suas opiniões com afinco dentro daquele casaco grande de náilon. Seu tom de voz era amadeirado, melodioso aos ouvidos dela, que prestava bastante atenção no que ele dizia. Prestava mais atenção, com tudo, no jeito como ele falava. E em como ele ficava bem de barba. Não conseguiu se conter e, por algumas vezes, arrumou um ou outro fio que destoava. Debaixo do queixo dele, ou mais perto da orelha, quase à altura dos óculos, onde aquela barba densa se juntava com o cabelo que ele agora tanto aprovava. Barba e cabelo, ambos do mesmo tom, mas os olhos... Ah, os olhos, não... Estes tinham uma cor ainda mais doce, quase caramelo. E ela realmente gostava de como esse caramelo escorria por sua pele quando ele a encarava. Ela sorria bastante e concordava com quase...

Madeira.

Ele parou, de joelhos, por cima dela, com o tronco erguido. O pescoço e os ombros eram como rocha esculpida. Amadeirados. O peito largo e questionador arfava. Seu rosto ia limpo, com sentimentos distintos e indefiníveis à mostra. Naqueles míseros segundos, o quarto silenciou. A penumbra encobria os móveis, mas havia certa luz argêntea. As paredes tinham a tinta cinzenta descascada, a cama, os lençóis revirados, e o chão, as roupas. Ele inspirou profundamente outra vez, olhando aquela criatura debaixo de si, com os cabelos estendidos e a pele em chamas. Os olhos vermelhos dela não se desgrudavam dele em nenhum momento. Dos seus cílios, do seu maxilar e dos seus braços. Os sete segundos passados foram o suficiente para ele registrar aquela cena quase notívaga. E então, ele avançou. Enquanto ele lhe rasgava o pescoço e o baixo ventre, fazendo jorrar o visco rubro, num completo frenesi, afogando-a com aquele cheiro sobrehumano e hipnótico, a cabeça dela pendia solta para ...

Untitled.

Eis que aos 21 anos de idade, me sinto nostálgica as fuck. Revirei meu blog nessa última hr e achei tanto texto, tanto sentimento, tanta gente, tanto eu que deixei pra trás... E pelo simples fato de crescer, de mudar de fase, de o tempo ser inconstante. Escrever esses dois primeiros parágrafos já são o suficiente para me causar náuseas, dores agudas no peito e uma incrível bola de lágrimas na garganta. Acho que por isso agora minha ausência desse blog é sempre tão mais espaçada. Acho que me tornei menos humana, e mil vezes mais covarde. Sinto muita falta de escrever, mas escrever como escrevo implica em vomitar meus sentimentos em palavras, e isso sempre vem com uma dor incrível, é um peso quase que insustentável, e talvez por isso eu o tenha evitado tanto. Meu Deus, eu já deixei tanta gente pra trás... Isso me dói. Uns de propósito, mas a maioria, não. Sou grata por sempre ter escrito pelo que estava passando, porque, hoje, quando releio meus textos, do ano passado ou de 2008,...

Let There Be Rock!

Eu tinha dezesseis anos, muito AC/DC na cabeça e pouco dinheiro no bolso, mas os caras iam vir pra cá. A porra da minha banda favorita ia se apresentar aqui em São Paulo, no Morumbi, eu TINHA que ir. Na época eu dava umas aulas de inglês, juntei alguns pagamentos consecutivos e esperei abrirem as vendas. O dia que fizeram isso foi uma sexta-feira, eu estava no colégio e ia pro ponto de venda depois da aula, mas quando eram mais ou menos umas dez da manhã, alguém (não me lembro muito bem, isso já tem quatro anos) me avisou que a fila já era imensa, e corríamos o risco de não conseguir. De alguma forma, eu convenci minha mãe a me tirar da escola naquele momento, sabendo que ia perder as demais aulas (sempre fui "nerd" nesse sentido, não cabulava aula, nem nada), e me levar pra lá. Fiquei na fila com um amigo meu por algumas horas, até que chegamos no balcão de venda e compramos. Meu ingresso dourado. Compramos o ingresso pra ver o AC/DC tocar. A espera daquele dia até o...

Cinzenta.

Silêncio. Céu cinza. Um silêncio arrebatador, calmo, que nascia e fluia naquela massa densa de água salgada. Eu estava boiando, com as orelhas abaixo d'água, o corpo leve, a mente vazia. Completamente vazia. Um estalo ou outro debaixo daquela imensidão marítima, mas, no geral, um silêncio verde escuro, pesado. Ondas levantavam mais ao longe, e eu conseguia ouvir seu movimento por debaixo d'água, mas num volume baixo, o silêncio ainda me preenchia muito. Reviravoltas aconteciam longe de mim. Crianças brincavam na praia, outras pessoas nadavam mais ao raso, e tsunamis se erguiam no meio do oceano. Gotas geladas e finas caíam do céu e me tocavam a testa e o nariz, ainda pra fora da massa salgada e líquida. Eu me fechava no meu próprio universo. Me sentia preenchida pelo vazio, cada vez mais. E cada vez mais impelida a fazê-lo. Algumas algas me tocavam os pés, e alguns peixes, as mãos, mas eu continuava intacta, boiando, sem coragem ou covardia de me mover. Meu corpo s...

Um Outro N.

Ela estava a meu lado direito, com um copo de cerveja em mãos, num gesto espelhado ao meu. Conversávamos sobre alguma amenidade passada em mais um dia de escritório. Ela tinha o cabelo repicado, e os olhos densos, cheios de experiência, apesar da pouca idade. Tinha também um ar meio sarcástico, que me fazia lembrar alguém... O ambiente era barulhento, porém mais claro que de costume. Como sempre ela tinha alguma peripécia pra me contar, situações que chamávamos de "Natalhisses". Experiências que só nós duas poderíamos entender, afinal, o nome só nos pertencia. E, mais do que isso, éramos a perfeita personificação do tal. Ela me fazia rir muito. Nos conhecemos há pouco mais de um ano, mas a sintonia agora era tamanha que... Me espantava. Não éramos melhores amigas, porque a definição disso que normalmente nos vem à cabeça é alguém que te conhece há muitos anos e com quem você já partilhou muita bagagem. Esse não era o caso ali. É só que... Entre aqueles copos de ce...