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Clareia

Leve abrir dos olhos. Gosto de cerveja ainda na boca. Inspira. Expira. O dia já vai claro, mas a noite de ontem ainda parece próxima. Rasa tontura Ele respira também, profundo. Seu peito sobe, e desce, junto com minha cabeça. Abro mais um pouquinho os olhos. Meu nariz encosta seu queixo. Inspiro mais uma vez. Beijo seu ombro, me aninho melhor, beijo seu pescoço. Não há melhor manhã que essa.

Vá.

A cabeça era um espiral só. Uma névoa tão grande por detrás dos olhos que mal se via no espelho que ficava à sua frente. Sentada na cama, ainda lhe parecia que faltava o chão. Os mesmos questionamentos, todos os dias, pelo milésimo dia consecutivo. Por quê? Pra quê? Pra quem? Até quando? Já não aguentava mais. Pois levantou-se num impulso único, deu seus passos pesados, passou a mão na chave do carro e na jaqueta, e bateu a porta atrás de si. Foi-se.

Outra vez.

Mais uma vez, a morte me pega de sopetão. Numa sexta à noite, quando tudo ia bem, a morte veio pelo telefone, nos deprimir, nos revirar. "Infelizmente, ela não aguentou", foi a mensagem passada. Muita correria, meus pais viajaram na madrugada com meus avós para chegarem até meu tio, lá no Sul. E estamos nos falando por whatsapp por enquanto. Minha mãe diz que está tudo até que bem, sem muito choro... Mais de vinte anos, fazia, que ela teimava com o câncer em deixá-la por aqui mais um pouco. "Foi melhor assim pra ela", a gente tenta se consolar... Foi? Será? É engraçado como a gente tenta achar meios de aliviar a dor. Eu sei, tia, que a gente não se via há um tempão. Mas sei também que o amor era puro. Assim como meus cachos sempre nascem loiros e o seu cabelo sempre nascia tão preto e forte, como você sempre brincava. Isso ai. Outra vez você vem mostrar seus caninos e me derrubar.  Parabéns, você não erra nunca, desgraçada. Espero que um dia se depare...

Um novo ano.

Acabei de voltar de Buenos Aires. Passei lá oito dias. Foram oito dias incríveis. Mesmo. Por muitas vezes eu pensei em escrever algo, mas na correria da viagem e no cansaço que me batia ao entrar no quarto do hotel, deixei passar. Eu tinha uma ideia bem boa, tentei ao máximo guardá-la. Posso até revirar as memórias agora e tentar vomitar algo, mas... Não sei... Bem, um novo ano começou. Achei que valia o marco aqui. Um novo ano. Uma nova chance de eu voltar a escrever, de me revirar. Vejamos o que isso me traz...

A Deusa

Eu passei pela porta, escolhi uma das raias e fiquei de pé, na frente dela. Joguei meus óculos na piscina e comecei a me alongar brevemente. Percebi, então, dois pares de olhos logo à minha esquerda, mais abaixo. Eu olhei. Eles congelaram. Eram dois rapazotes, de seus 17 ou 18 anos, provavelmente fazendo uma aula teste na piscina, e dividiam a mesma raia. Eles me olhavam estarrecidos. Eu, de pé, acima deles, os choquei.  O olhar deles, estarrecido, sem palavras, me alimentou, e eu cresci. Tinha meus 1,70m. Depois, 2m, 3, 4, 5, 6 metros de altura. Me tornei imponente. Minha forma física e aura tomaram conta da atenção deles de forma que nenhum outro som era ouvido senão o de admiração deles. Uma admiração sem entendimento. Eles me olhavam sem saber o por quê. Era a Deusa que se mostrava por mim. Quebrei o brilho que me rodeava e mergulhei, nadando como eles nunca viram outra humana nadar. Ficaram completamente estancados, embasbacados.  Eu fui Igraine, Morgause e...

Über?

Eu estava bem irritada, porque havia esperado uma carona e não tinha dado certo, então, além de sair atrasada, ia ter que pagar por um Uber. E tem outra, tava garoando. Aquele clima horrível de fim de tarde em São Bernardo. Ah, foi me irritando também o fato de passarem os minutos e o cara não chegar pra me buscar, o GPS do Uber tava bagunçado, então já viu... Enfim, chegou. Emerson, chamava. Num Honda City bem confortável, por sinal. O caminho do escritório pra minha casa não durava mais que 15min, mesmo. Eu realmente não sei como, mas ele começou a me contar que havia voltado da Alemanha nesse ano. Ele teve um restaurante aqui em São Paulo durante 30 anos. Tinha se casado por aqui e teve até um neném! Quando o bebê tinha por volta de um ano, eles resolveram vender tudo e simplesmente ir morar em Düsseldorf, onde ele abriu um café e eles viveram durante 2 anos. Eles acabaram se separando e ele voltou para "resolver algumas pendências aqui", sobre as quais, claro, eu ...

Mendigos.

Ele era o que chamamos de mendigo. Um dos mais pobres. Sentava numa mureta da esquina, com as roupas maltrapilhas e malcheirosas, rotas. Tinhas a muletas também apoiadas à mureta, enquanto descansava sua única perna. Tinha uma toca à cabeça e cabelos muito ralhos e grisalhos. A vida não lhe tinha sido leve. Tinha o feito sujo, desgraçado e pobre. Muito pobre. À sua frente, contudo, sentava um cachorro. Um vira-lata, assim como ele mesmo. Com o pelo indefinido e até meio grisalho. Se postou ali e ali ficou. Sentado, encarando o mendigo. Encarando. Encantado. Sua admiração crescia e crescia, naqueles pequenos olhinhos cintilantes. Era tão visível que arrancou do mendigo um grande sorriso. O mendigo lhe estendeu a mão. Ele lhe estendeu a patinha direita em retorno. Os dois ficaram se encarando, de mãos dadas, infinitamente. Os dois seres mais ricos do mundo.