quarta-feira, 1 de junho de 2011

Nós.

Sentado ao sofá, admirando a TV como sempre faz, com o controle numa das mãos, ele fica ali, meio boquiaberto, incomodado com a própria respiração.
Calça um par de tênis, veste um par de jeans, uma polo amarela e uma blusa de lã de seu pai.
Admiro-o por isntantes curtos, para que o momento não seja perturbado, para que eu tenha tempo de fotografar aquilo mentalmente antes que ele se mexa.
Os óculos grossos escondem olhos castanhos extremamente bondosos. O cabelo ralo evidencia a inteligência. Os pulsos incrivelmente largos me remetem aos meus próprios.
Ele enfim me vê, me dá um oi desanimado.
E eu sei porquê.
Todos sabemos porquê.
Eu estou desanimada também, e amanhã, reunidos, todos ainda estaremos.
Sem você.
Ele sente isso.
Eu sinto isso, sinto o quanto ele é abalado por isso, mas não tenho a coragem de abraçá-lo e dizer em voz alta que compartilho de seu sofrimento. Afinal, é esse meu caráter que me torna mais filha dele.
Agora, meus ossos são pesados demais para que ele me carregue fisicamente em seus ombros como fazia quando eu tinha cinco ou seis anos. Figurativamente, contudo, ele o faz. E sempre o fará.
Mais tarde, surpreendo-o (nos) com um abraço.
Eu o enlacei em meus braços por um instante e me aninhei. Ele retribuiu, sem dizer palavras.
Do nosso jeito, ambos sabemos que isso significa transmissão de forças e sentimentos, sem ser necessário abrir a boca.
Se eu pudesse, ficaria aqui para sempre, aninhada nesses ombros largos e braços fortes que me seguram agora. Mas não posso.
É simpelsmente injusto.
Eu ficar aninhada a meu pai assim, enquanto ele não pode fazer o mesmo. Órfão.
Solto-o e me afasto para chorar em silêncio, escondida, como faço todos os dias desde agosto do ano passado.
Não suporto a ideia de que ele envelhece. De que algum dia eu o perderei também. Jamais serei forte para aguentar tal dor.
E então a lembrança do pai dele, e da casa onde ele e seus irmãos cresceram, onde eu e minha prima e minha irmã crescemos, me volta aos olhos, e o pranto se faz mais presente, mais grosso na garganta, virando e revirando-se em bolas de água salgada. O oceano de novo.
Socos no estômago de novo.
Tenho certeza de que se eu levantar a blusa, hematomas gigantes estarão à mostra em minha barriga por causa deles.
No espelho, meu semblante demonstra um corpo enfermo e uma alma machucada. Acho que daqui pra frente, esse é meu novo rosto.
De novo eu jorro esse sangue, essas vísceras, essa aflição, essas saudades.
Por mim e por ele.
E dele.
Já.

Ps.: foi só um jorro de palavras que tive que escrever...foi vindo e saindo.
Natália Albertini.

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