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Abre bem a boca.

Apoiava-se num dos bancos para manter o equilíbrio enquanto o veículo grande e metálico fazia manobras, freava e avançava nos sinais. Olhava pelo vidro, enxergando sem ver o mundo andante lá de fora. Foi quando, impulsionada por um movimento do ônibus, sentiu aquele cheiro tão familiar e ao mesmo tempo tão estranho. Empurrou a cabeça para a direita e então a viu: a mulher estava sentada num dos assentos, com uma expressão facial de profunda agonia, enquanto segurava com a mão esquerda uma pequena toalha cor-de-rosa, encharcada daquele líquido rubro e viscoso tão bem conhecido de todos. Franziu o cenho e tentou respirar o mínimo possível, evitando que o odor da desconhecida subisse por suas narinas, embora hipnotizada pela cor de tamanha aflição. A mulher levou a toalha à boca e a enxugou, umidecendo ainda mais o algodão com aquela cor escura. Então todo aquele sangue vinha dali, da boca dela que parecia jorrar visco. Ora essa, mulher, o gato comeu-lhe a língua? Independente do autor te...

Friendly as it should be.

I shared with him so many tears, so many whispers and so many sobs last night that now i'm even embarassed to look at him again. He had seen me in so many situations, sometimes so freaking happy, sometimes tired, sometimes damn depressed, but one thing he always notices is that i always need him, and, at certain times, more than once a day. He's definately one of my closest friends, if not the most one. I'm again in doubt about everything in my life, again asking myself things i don't wanna hear the answer. And again he was my confident. He's the only person who knows what i'm really talking about here. I mean, you all know it's madness of mine, but he knows where it comes from. In the middle of the night, he was the only one who stayed with me when i most needed a hug, when i most needed a shoulder to cry over. And he's always so soft and gentle with me... He always knows what my dreams are and if they ever are going to come true. He's just...my pil...

Boticário.

Um dos meus pequenos mas fundamentais prazeres é sentir o cheiro dos shoppings, sabia? É, pode ser uma enorme bobagem e até parecer que sou a pessoa que mais idolatra o capitalismo ou coisas assim. Mas, não, não tem nada a ver com ideologias ou filosofias, é simplesmente aquele mínimo prazer carnal que você tem, entende? Todos os dias que saio da escola e venho para casa de ônibus, sou obrigada a passar pelo shopping Metrópole (minúsculo, a propósito, quase uma galeria). Eu espero o farol fechar para poder atravessar a Av. Pereira Barreto, passando por três faixas de pedreste, até alcançar a calçada do posto de gasolina, onde sempre tenho de dar um passo maior que os outros para poder subir aquela pequena inclinação. Com as mãos nos bolsos, soltas ou segurando as alças da mochila, adentro o shopping e, como que realizando um ritual rotineiro, inalo aquele odor tão familiar e reconfortante. Caminho rápido até a loja O Boticário, da qual me aproximo e também roubo um pouco de seu cheiro ...

Desequilíbrio.

Caminhava sem pressa, despreocupada, mas sem perder a postura. Segurava as duas alças da mochila preta de maneira frouxa. Tinha os olhos presos nos pés, vendo-os cruzar um na frente do outro. Repentinamente levantou a cabeça, pois o cheiro familiarmente agradável da loja em frente chegara às suas narinas. Entretanto, neste ato, seu olhar também se levantou e acabou por deparar-se com uma figura surpreendente. A moça quase se desequilibrou, cruzando demais os pés, quando seus olhos bateram de frente com aquela figura de cabelos cor de ouro e meio despenteados, olhos fundos e claros, maxilar trincado, rosto quadrado de lábios e nariz finos, pele clara, mãos enfiadas nos bolsos dos jeans e ombros tão largos que faziam a camiseta azul escuro esticar. A figura a encarou, mas não de maneira tão profunda assim, já que passados dois ou três segundos ela percebeu que só estava olhando para um pôster de filme. Abriu um pequeno sorriso, como que desprezando a si mesma pela imensa idiotisse. E pen...

We're Going to Jackson.

Minhas mãos estavam apoiadas na mesa de madeira, e no meio delas estava posicionada um recipiente metálico coberto por um pano de prato branco de bordas vermelhas de crochê. Tinha as costas eretas e a cabeça direcionada para minha diagonal esquerda, pois essa era a direção dele. A cozinha era simples, toda lígnea, mesclando tons claros e escuros, mas principalmente formada por antiguidades. O batente da porta também era daquele material, e era onde ele se apoiava, espiando o cômodo ao lado. O rapaz se virou e num milésimo de segundo, estava passando por detrás de mim. Tentei reconfortá-lo: - Você está mais aflito que eu! Não obtive resposta verbal. Ao invés disso, ele me puxou pela mão, deixando na mesa a torta que eu tinha levado, e começou a me arrastar para o cômodo ao lado. Este, por sua vez, era também marcado por poucos móveis: apenas uma mesa e quatro cadeiras, todos também lígneos. As três pessoas, duas mulheres e um homem, que estavam sentados, sorriram ao me ver, o que me tra...

Folhas de hortelã.

Tudo o que via era vinho escuro. As maozinhas seguravam com força aquele pano pesado em volta de seu corpo, deixando á mostra as oscilações que sua barriga fazia, descendo e subindo, puxando e expirando o ar. A cortina era bastante grossa e grande, mas não comprida o suficiente para lhe encobrir os bem lustrados e afivelados sapatinhos brancos de vinil. A sala de estar tinha móveis aconchegantes e tapetes desenhados. Era um ambiente de cores quentes e escuro, mas bem iluminado por janelas que iam do teto ao chão em puro vidro. - Que estranho, eu poderia jurar que vi uma pequena garotinha entrar aqui... Um cheiro suave a familiar de hortelã chegou às pequenas narinas, ainda que por detrás daquele grosso brim cor de vinho, causando um pequeno surtos de risadas abafadas. Aquele odor sempre trazia à pequena criança uma sensação de bem estar e segurança. Mal sabia ela que se lembraria daquilo pelo resto de sua vida. Á medida que percebia a presença daquela outra grande criança que brincava ...

Last Tango In Paris.

As pernas cruzadas por debaixo da mesa continuavam inquietas ao som da melodia de fundo. Os dedos tamborilavam na superfície metalizada que apoiava uma taça ornamental de algum drinque vermelho, bem como o vestido. Este, decotado nas costas e amarrado no pescoço formando uma frente-única estonteante, realçava-lhe os ombros e braços finos e claros, como também seu pescoço comprido e charmoso que fazia um caminho bem delineado até traços angulosos de seu rosto feminino e misterioso. Seu cabelo estava preso num coque volumoso e escuro, de maneira a combinar com os olhos pintados e cheios de ondas revoltas. Num ambiente escuro e marcado por colorações quentes, sua presença ainda assim se destacava. Por ter sido bem observada, uma mão mais forte e morena que a sua logo se estendeu para ela. O pequeno e de bem selecionado público bar argentino logo se iluminou com todo o brilho daquele casal que se perdeu em ochos, ganchos e tango pelo resto daquela madrugada de outubro. Natália Albertini.