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613.

O quarto estava pacificamente escuro, as cortinas pesadas cobrindo a vista noturna. As únicas vozes que quebravam o silêncio eram baixas e falavam num outro idioma, vinham da TV, que também emitia uma luminosidade preguiçosa. Os lençóis grossos cobriam desordenadamente as pernas. Ela estava sem a camiseta, com o cabelo lhe cobrindo o sutiã. Os shorts ainda vestidos. Uma cerveja apoiada na cama. Ele só tinha a boxer no corpo e uma lata na mão. Seus olhos iam semicerrados, cansados de tanto ver a estrada pela frente; as costas sem postura, provavelmente reclamando da cama de hotel desconfortável. O sono o alcançava. Ela o admirou por um tempo, encantada mesmo depois de 2.800KM rodados naquela caminhoneta que haviam carinhosamente apelidado de Sophie. - Eu dirijo amanhã - ela sussurrou. Tarde demais, ele já dormia longe dali, nebulosamente sonhando. Ela sorriu e colocou as duas latinhas no criado-mudo de madeira escura, desligando a TV. Beijou-lhe a testa e o ajeitou na cama. Não ...

11.

- Pode chorar, eu estou aqui com você - ele sussurrou. Um par de faróis passou pela rua escura e deserta, iluminando o interior do carro dele. Ele a tinha em seu colo. Seu cabelo ia revolto, os olhos marejados e o lábio inferior protuberante como uma criança fazendo bico. Ele encarava suas feições agoniadas e iminentemente chorosas. - Pode usar minha camisa - ele insistiu - para enxugar as lágrimas. O pranto expeliu os olhos claros dela, sem maiores cerimônias, incapaz de ser contido. Ela não conseguia abrir a boca pra sequer explicar que era a pior pessoa do mundo em lidar com sentimentos. Eles eram naturalmente incompatíveis com sua forma física, não cabiam dentro dela. Sua única forma de reação a eles era exeplir água salgada pelos olhos e ficar com a cara inchada. Chorar. Chorar e chorar. Ela era do avesso e sabia. No caso dela, chorar significava algo bom. Temia, contudo, que ele se assustasse com aquilo e não entendesse que as lágrimas por si só revelavam um dos sentimentos mais ...

Chantilly.

- Só um pouco, tá? - Tá - ela disse, risonha. Ele trocou de marcha e abriu a boca, com a atenção ainda voltada para os carros à frente. Ela chacoalhou a embalagem cilíndrica que tinha em mãos, sorrindo, e a aproximou dele. Pressionou a válvula e encheu a boca do rapaz de chantilly ao ponto de ele não conseguir falar. Jogou a cabeça pra trás, rindo, deleitada com a brincadeira. Ele não conseguia engolir o leite batido de tanto que ria com ela. Seus olhos eram escuros, e ele os apertava quando ria. O sorriso dele era tão doce e espontâneo que a dava ainda mais vontade de continuar rindo. E de continuar ali, naquele carro, fazendo-o rir por muito tempo, até que os abdômes e os maxilares começassem a doer. E até que não houvesse mais asfalto para cobrirem. E até que não houvesse mais nada. Só eles e suas bocas cheias de chantilly . Natália Albertini .

Amarelo.

Tinha o pé no pedal do meio, o carro desengatado. Passavam das dez da noite e a chuva persistia, dando finas agulhadas no capô e nos vidros. Só o barulho dela como trilha sonora. O sinal ainda vermelho. Um mar indecifrável e agitado ondulava dentro de mim. Saudades. "De quê?" aquelas ondas sussurravam. Não sei. Mesmo. Saudades da 336. Saudades dos óculos grossos dele. Saudadas da gente unido. Saudades até mesmo do que eu tinha com aquele Peter Pan. Respirei fundo. O sinal para os carros que cruzavam amarelou. Engatei a primeira. A chuva ainda caindo. Eu ainda pensando, o mar noturno ainda me umedecendo por dentro. Os carros a meu lado partiram. Eu fiquei. Sem entender. Pra mim, o sinal voltara ao amarelo, e não ao verde. Por que eles seguem? E eu continuo aqui, engatada na primeira, mas sem conseguir tirar o pé do freio? E as ondas me sobem à superfície azul outra vez. Natália Albertini.

Suculenta

Ela começou a se vestir: pôs a calcinha e a saia branca de pregas. Ele a admirou por um tempo, ainda deitado, com os cabelos da nuca encharcados. Levantou num ímpeto e postou-se de pé, nu, em frente a ela. Enlaçou-a pela cintura e olhou o reflexo dos corpos dourados colados no espelho à direita deles. Os cachos compridos e claros cobriam os seios bem definidos dela. Ela encarou o reflexo dele. Os olhos do rapaz percorriam suas coxas, cintura e seios, ainda faminto. Por fim fixou-os nos olhos dela, acinzentados. - A gente forma um casal bonito - ele deixou escapar. A palavra "casal" não lhe causou arrepios como antes. Sorriu mediante aos desejos dele. Ele jamais a teria, ela era inatingível, e era isso que a tornava tão suculenta. - Claro que forma - ela respondeu numa voz rouca e em lábios avermelhados e aveludados. Beijou o queixo robusto e barbado dele. Os olhos dos dois reflexos não se desgrudavam, vítreos. Hipnotizado. Mais um. Ela engoliu a própria saliva, que, ao escorr...

Ensolarados.

A estrada livre à frente do carro. O cheiro de mato dançando na serra. O Sol se esparramando pelo painel. Minhas pernas quase douradas dobradas sobre a mala aos meus pés. Meus cachos, intempestivos, esvoaçando a frente de meus óculos-de-sol. Ele dirigindo, sibilando a letra da música ao raído, com seus óculos exagerados. Ela, de cabelos longos, encostada ao banco, tranquila. Atrás de mim, ele olhava pela janela. O carro cheio de malas, nos apertando. Nós quatro voltando para a vida real. Nós quatro. Nós. Ps.: and what I feel for you, my dear friends, does not have a name. Natália Albertini.

Vitória Régia.

- Quer ir pro mar? - ele perguntou, olhando-a aos olhos. Ela deu dois passos para trás, em direção às ondas, com um sorriso ao canto dos lábios salgados e fez que sim com a cabeça. Começou a passar pelas quebradas do mar devagar, de top e calcinha, com o cabelo molhado a lhe tocar a cintura bem definida. Ele deixou as roupas na areia e entrou silenciosamente na água. Logo, ela sentiu o corpo atrás do seu, pulsante e firme. Sorriu para o céu escuro, de olhos fechados. Abriu-os novamente por causa da pressão que os dedos dele faziam entre suas pernas, sob o mar agitado. A barba dele lhe arranhava as costas e a nuca, em beijos ofegantes. Virou-a de frente para si e a pegou no colo, com as pernas envoltas em sua cintura. Ele a segurou pelas pernas e a fez subir. E depois descer. A Lua já havia sumido há tempos e o Sol ainda não havia dado as caras. Eram só as ondas silenciosas, eles e seus sussurros. Ela segurou-se nele pelos braços fortes, que apoiavam suas pernas douradas, e deitou na ág...