sexta-feira, 7 de março de 2008

Amarelo dissolvido em azul


Cat Power - Sea of Love
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Bege e azul. Rosa e laranja. Marrom e dourado. Verde e castanho.
Os pés sentiam os finos grãos pinicarem. A densa e gelada massa líquida arrastava-se, ou melhor, rastejava sobre o bege, começando a querer encobri-lo. O vento arfava e jogava tanto o dourado quanto o marrom para trás e para os lados. O crepúsculo era um espetáculo por si só.
O movimento que as quatro pernas faziam era completamente sincronizado, fazendo com que os corpos fossem para frente. As mãos estavam soltas, separadas, perdidas umas sem as outras. Os olhos, desencontrados, longe. As palavras, entaladas na garganta e amarradas na língua. As almas, as mentes e os corações, mais próximos do que nunca.
Ela tentava achar alguma maneira de agradecer-lhe a presença. Ele, alguma maneira de dizer que ela era seu presente. Ambos não faziam idéia de por onde começar. E tinham uma idéia ainda menor de onde tudo terminaria.
Ele enfim deu o primeiro passo, ou, melhor dizendo, não a deixou dar o próximo: segurou-a pelo braço esquerdo com delicadeza e ficou de frente para ela. Abraçou-a e deixou-a deitar a cabeça em seu ombro direito. Finalmente as mãos dela encontraram as costas e a cintura dele. Finalmente as dele encontraram o dourado dela e o colocaram para detrás da orelha para que pudesse, por fim, sussurrar o que parecia estar amarrado por um nó na língua e na garganta:
- Desculpa ter demorado.
Ela respirou de maneira profunda e audível. Fechou os olhos e afundou a cabeça no pescoço e no castanho dele, respondendo:
- Não me importa o tempo que leva, a recompensa que você me dá é sempre gratificante.
Ele sorriu e pousou os verdes nela. Era bem mais alto que ela, logo, tinha vantagem em certas coisas. Sorriu, sabendo que, ainda que ela não o estava olhando, sentia. Aproximou-se do pescoço dela e beijou-o. Neste exato instante, o azul alcançou os pés da menina e esfriou-lhes, assim como fez com que a barriga esfriasse com maior velocidade e que as borboletas voassem mais eriçadas.
Desencostou o rosto do ombro dele e olhou com os castanhos direatamente para os verdes dele: fatalidade. Pegou-lhe pela mão e começou a andar contra o movimento da água, entrando nela, pouco se importando com sua baixa temperatura.
O rosa e o laranja tinham cada vez menos o amarelo. Á medida que ele falava, ela afundava um pouco mais. Ele perguntou:
- Não importa de molhar suas roupas?
- Desde que esteja com você, mal me importo comigo.
- E as ondas? Não te machucam? Não te assustam?
- Assustam, sim, mas são só ondas, elas quebram, o mar continua.
O amarelo estava ainda mais fraco quando ele a reprimiu, dizendo que a profundidade já era bem maior que a permitida de acordo com as normas de segurança. Ela, nas nuvens, isso é, nas ondas, respondeu indiferente:
- Você me dá toda a segurança que preciso.
Os dois abraçaram-se quando a água já alcançava-lhes os ombros. Ali onde estavam, as ondas não eram mais frequentes e o grande astro-rei já apontava apenas um mínimo pedacinho no agora vermelho. Ela beijou-lhe a orelha e sussurrou mais alto que a água que achava que ele não existia. Ele afastou um pouco e disse-lhe:
- Eu te amo.
Seus olhos encheram-se de azul, porém, não o azul que a envolvia, mas, sim, o azul que vinha de dentro. Ela beijou-lhe delicadamente os lábios e então nadou mais, porém, ele ficou para trás.
A menina simples e propositalmente afundou, submergiu. De dentro do azul pôde ver o corpo flutuante do rapaz logo à sua frente. Todavia, ao invés de subir e pegar ar lá de fora, achou seu próprio ar ali, submersa. Descobriu então para onde todo o amarelo tinha ido. Onde estava, não estava imersa no azul, mas, sim, num intenso amarelo. Ali conseguia respirar e até encontrar-se. Entretanto, o amarelo praticamente a cegou, não via mais o corpo dele, não mais o tocava.
Os pulmões encheram-se enfim de verde.
Natália Albertini.

2 comentários:

Marco disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Marco disse...

não sei porque, mas adoro esse texto, sempre gosto de ler ele quando você não esta por perto...

=* delicados