terça-feira, 25 de novembro de 2008

Só um minuto, John.

O ônibus estava razoavelmente espaçoso, isso é, ninguém era obrigado a ficar de pé. Nos quatro últimos assentos do lado direito, logo à frente da porta traseira, sentavam-se duas moças e duas mulheres mais velhas. Estas últimas sentavam logo antes da porta. Já aquelas, um banco à frente.
Os fones serviam de ponte para John Mayer alcançar a mente da moça mais jovem, sentada ao corredor. A que estava ao seu lado babava no vidro, profundamente adormecida, quando o diálogo das mais velhas chamou a atenção da mais jovem das quatro:
- Ééééé, dizem que a vida começa aos 40. Acho que têm razão. Porque a minha começou mesmo... Começou a piorar! - e riu, acompanhada da colega ao lado, que prosseguiu a conversa.
- Pois é, depois dos 40, os "gistas" despencam em cima da gente, né? É cardiologista, oftalmologista, nefrologista, otorrinolaringologista (não que ela pudesse realmente pronunciar isso, mas tentou ao máximo), neurologista, pneumologista, reumatologista...
- É, e por ai vai...
John Mayer teve de esperar. Ele que sussurrasse em seus ouvidos mais tarde, pois aquela conversa merecia mais atenção. Olhou aflita para os lados, para checar se alguém acompanhava o diálogo: nada. A mulher a seu lado dormia, o velhinho do outro lado do corredor lia o jornal, o cobrador contava o dinheiro. Nada, ninguém não se dava ao trabalho de parar o que quer que estivesse fazendo por um só segundo e ouvir aquelas mulheres que conversavam em alto e bom tom.
As duas mulheres conversavam sobre um dos maiores medos da humanidade, um dos maiores mistérios ou seja lá o que fosse, conversavam sobre uma questão ótima: o tempo. E ninguém tinha a capacidade de dividir o seu. Era precioso demais.
É, talvez fosse isso. Talvez achassem seu tempo sagrado demais e acreditassem que aquelas duas mereciam ser queimadas vivas por tamanha falta de respeito para com seu deus.
Teve vontade de se virar e encará-las admiradamente, mas não o fez, pois sabia que nenhuma tomaria aquilo como um gesto de respeito, mas sim como desrespeito. Decidiu por apenas continuar a ouvir. Entretanto, uma delas teve de descer, pois "a casa de sua patroa era logo ali, virando a esquina".
A garota também desceu. E, assim que o fez, John foi testemunha de quanta indignação o olhar da menina continha.

Natália Albertini.

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