terça-feira, 27 de julho de 2010

Rosto rasgado.

Abri os olhos, esfreguei-os com mãos sonolentas.
Ouvi a voz de minha mãe ao telefone, sozinha e com toques alegres.
Franzi o cenho e me livrei das cobertas.
Levantei da cama e deixei o quarto.
A sala estava clara, com as luzes acesas.
Estranhei.
Assim que ela me viu, abriu-me um belo sorriso com seus dentes pequenos e perfeitinhos. Os olhos se encheram, os cílios se iluminaram.
Ainda ensonada, não conseguia distinguir bem com quem e o que ela falava, mas não pude conter que meus lábios fossem dedilhados por um sorrisinho de canto, embalado pelo dela.
Desligou o telefone.
Com o cabelo revirado e o cenho ainda franzido, interroguei-a com um gesto de cabeça.
- Seu vô melhorou, Ná! Ele tá ótimo! A gente vai lá na casa dele agora!
Olhei no aparelho de DVD na estante. A fluorescência azul indicava três e vinte e cinco da manhã.
- Agora? - indaguei.
- Sim!
- É, filha, agora! - a voz de meu pai vinda da cozinha.
Desnorteada, mas surpresa de uma ótima forma, me contentei.
Meu corpo tratou logo de vestir uma outra roupa qualquer que não meu pijama.
Fomos até a casa de meu vô.
Ao chegar lá, muitos membros de família. Primos, tios e tios-avôs.
Uma grande festa estava acontecendo ali.
Não podia deixar de achar tudo aquilo muito insano, mas ao mesmo tempo, meu ser jamais sentira tamanha felicidade.
Entre guarnições e vinhos sendo servido às quatro da manhã, sai em busca de meu avô.
Achei a porta de seu quarto fechada.
Bati suavemente e entrei.
- Ô, menina! Como chama? - ele demorou alguns segundos - É... Natália!
Rasguei minha boca num sorriso maior que o mundo.
Ele estava com sua calça social, seus chinelos, sua camisa listrada e sua blusa de lã.
Tossiu uma ou duas vezes, levando uma das mãos à boca.
Foi então que vi que ele tinha em mãos aquela caixa, à qual minha tia anteriormente havia se referido como "umas coisas da mãe de que ele morre de ciúmes". Aquela que continha um relógio, uma correntinha e um par de brincos de pérolas de minha avó.
- Abre essa gaveta aí - ele apontou a primeira gaveta da cômoda.
Obedeci.
Encontrei ali um DVD de forró.
Retirei-o de lá e me aproximei de meu vô com aquilo em mãos.
Ele me disse:
- Eu comprei outro dia! Precisava treinar, né, menina? - e deu aquela sua risada de menino, que lhe fazia os olhos se apertarem nos cantos e abarcarem o mundo com olhar de criança.
- Sim, vô, fez bem! - ainda sorrindo.
Me sentei na cama ao lado dele e o abracei como jamais abracei qualquer outro em toda a minha existência.

Acordei no meio da noite abraçando meu travesseiro salgadamente enxarcado.

Da mais agoniada e temerosa que nunca, entretanto, sempre sua,
Natália Albertini.

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