sábado, 6 de novembro de 2010

Cabelos brancos.

Eu lia um livro sobre a Starbucks para descobrir um pouco mais sobre sua estratégia. Lia sobre o Green Apron Book e já formulava mentalmente algumas frases que colocaria em meus slides mais tarde.
Ao mesmo tempo, eu mexia os lábios, acompanhando um bom Pink Floyd.
Foi quando um velhinho, aparentemente beirando os setenta anos, sentado no banco preferencial à minha frente, deu dois leves tapinhas amistosos em meu joelho.
Levantei os olhos a ele e tirei um dos fones.
- Desculpe te interromper, menina - disse ele - mas preciso te dizer algo.
A moça sentada a meu lado era sua acompanhante, talvez uma filha. Olhou-o com tanta curiosidade quanto eu.
- Sem problemas, senhor.
- Eu fico admirado - ele prosseguiu - em como você consegue ler e se concentrar tanto num livro dentro do metrô.
- Ah, é o hábito.
- Você vê, eu leio muito.
- Ele lê muito mesmo - acrescentou a moça - e ele lê aqueles livros desse tamanho - fazendo um gesto para indicar a grossura dos livros.
Eu sorri. Ele emendou:
- Pois é. Eu leio, mesmo. Mas não consigo ler assim, no metrô, no ônibus, no carro...
- Ah, mas antes eu também não conseguia, me sentia enjoada.
- Iiisso, a gente se sente assim, mesmo - os dois concordaram.
- Então, só que eu faço esse caminho de ida e volta todo dia, e dura tanto tempo que eu não gosto de simplesmente desperdiçar assim. Aí acabei me acostumando a ler, agora não sinto mais náuseas.
- Oh, que interessante... - ele disse - Talvez eu tente.
Retribuí-lhe com um largo sorriso.
- Bom, desculpe ter te atrapalhado! - ele disse, e os dois sorriram de volta.
- Ah, imagine!
Os três ficaram ali, amigavelmente sorrindo.
Logo eles dois voltaram a falar sobre algo que não me convinha, então coloquei de volta meu fone e voltei a ler.
Duas ou três estações depois, percebi que ela já havia descido e que ele se levantava para deixar o trem metálico.
Bateu suavemente em meu ombro e acenou:
- Tchau, mocinha!
- Tchau, senhor! Muito prazer!
Nós acenamos um para o outro e sorrimos.
Eu vi ele saindo e as portas se fechando.
Me vi sozinha.

Natália Albertini.

Um comentário:

Rafa. disse...

Episódios fundamentais do cotidiano.

Leio no ônibus também e igual você, antes não conseguia. O fato de tu ter citado no texto que não gosta de desperdiçar o tempo do trajeto... É interessante porque me faz pensar que as coisas ainda tem salvação (não de uma forma dramática, mas sim, lúdica)e que o belo hábito da leitura ainda é cultivado por pessoas inteligentes.