sábado, 7 de maio de 2011

Vitória Régia.

Um corpo flutuava sobre a quente e calma água.
Sob si, nascentes incansáveis e pedras dorminhocas.
Acima, um aveludado céu enegrecido, pontilhado de incontáveis estrelas long gone.
Não havia barulho que incomodasse o silêncio aquaticamente vítreo.
Seus cabelos a rodeavam como uma vitória régia. Seus cílios eram acariciados pelo veludo noturno, e seus olhos, pelas inacreditavelmente belas estrelas.
Com os ouvidos debaixo dágua, ouvia a própria respiração, calma.
O planeta girava, sereno, enquanto ela vagava pela superfície da água.
Continuou boiando por um tempo indeterminado.
O tempo já não mais existia, nem suas reflexões. Era só ela e o planeta. Ela fundia-se à natureza, sendo ela mesma a Mãe.
Viu-se, então, no fundo do lago, tocando as pedras, quentes pela água, sem esforço algum para manter-se submersa. Parecia pesada o suficiente para afundar.
Com olhos bem abertos, tão aquáticos quanto as próprias nascentes, olhou toda a imensidão ao redor de si, aquela vastidão infindável.
Ao olhar para cima, viu o corpo ainda boiando à superfície, embora com a face virada para baixo, encarando-a.
Os olhos corpóreos estavam arregalados, sem medo, contudo.
Ela sorriu ao corpo que a havia sido tão útil e se entregou completamente às profundezas, sendo dali levada, absorvida.
Toda azul e preto.
Toda veludo.

Natália Albertini.

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