domingo, 1 de maio de 2011

Listras.

Uma longa fila esperava de pé no corredor do avião para o desembarque, preguiçosa.
De um dos lados da barreira de pessoas cansadas da viagem, uma moça, só, com pernas compridas e morenas, torneadas em shorts listrados e curtos, pés em chinelos, torso em camiseta lisa preta e olhos em delineador preto.
Do outro lado, um rapaz alto, de pernas em jeans, tórax em camiseta cinza, cabelos em tons louros e maxilar em barba rala. Ele, porém, não estava só. Sua namorada, presa num corpo insípido e quebradiço, sentava a uma das poltronas, insossa.
Por cima do corpo daquele peso morto, ele encarava a moça do outro lado da barreira, infiel em pensamento, com olhos duros.
Ela levantou os seus azuis aos verdes dele e sustentou o olhar, provocativa e orgulhosa.
Ele olhou bem para a moça escorregadia e sem vida abaixo e, sem titubear, passou por cima de suas pernas, empurrou as pessoas que formavam a fila e a barreira que o separava daquelas pernas escandalosas, causando certa balbúrdia.
Ela não pareceu surpresa, pois só jogou o celular que tinha em mãos num dos assentos, e o encarou até o último instante, até que seus lábios se encontraram.
Atracaram-se.
Ele a empurrou contra o assento do meio. Ela abriu as pernas e envolveu com elas o torso dele, enquanto as línguas se embaraçavam e as mãos vasculhavam os corpos.
Puxaram os cabelos, reviraram os olhos e arrancaram as roupas. Ali mesmo, aos olhos dos passageiros embasbacados, chocados, ultrajados.
A surpresa era tamanha que ninguém falava. O silêncio da aeronave já parada só era quebrado pelos gemidos e gritos débis e animais que eles soltavam.
A namorada era de tamanha indiferença que mal se levantou para olhar, parecia alheia, só continuou sentada, sem poder ver nada, já que corpos se interpunham no corredor.
Arranharam-se, morderam-se e lamberam-se. Os corpos se esquentavam e friccionavam em movimentos contínuos e irregulares. Ela gemia mais e ele arfava, e então eles...
- Pode passar, moço - uma mulher de meia idade lhe dirigiu a palavra, dando-lhe passagem, já que a fila andara.
Ele saiu do transe.
Estava ali, ao lado daquela namorada sem brilho, imóvel desde o início da briga de olhares. E ela ainda o encarava, tão firme quanto no começo. Sem, contudo, terem sequer se tocado.
Ele agradeceu a mulher, mas cedeu a passagem às pernas.
Ela sorriu de canto, orgulhosa, e depois de colocar o celular no bolso de trás, de forma rápida, mas visível somente a ele, fechou o zíper dos shorts. O sorriso não lhe desgrudou os lábios avermelhados.
Ela passou à sua frente e caminhou em direção à rampa de acesso ao aeroporto.
Logo atrás, ele olhou bem o quadril bem definido e as nádegas delineadas nos shorts justos, sentindo os arranhões lhe arderem nas costas.
Sorriu sem discrições, sem ao menos saber o nome de sua infidelidade.

Ps.: de volta e inspirada!
Natália Albertini.

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