segunda-feira, 16 de maio de 2011

Encardidos.

Estava sentada num dos bancos azul-escuro do metrô.
Tinha sobre minhas pernas meu casaco e minha mochila. Eu partia para uma noite inescrupulosa.
O gigante metálico estava excessivamente povoado de corpos cansados naquele sábado à tarde.
À minha frente, uma mãe com roupas surradas e uma criança por volta dos quatro anos em seu colo, com as sobrancelhas envergadas.
O pequenino tinha a pele encardida. Às temporas, subiam-lhe manchas escuras, bem como às maozinhas, com as quais ele tanto esfregava os olhos.
Seus lábios incolores se retorciam para baixo, ameaçando o pranto. Ele esfregava, esfregava os olhos, e então esfregava mais um pouco, reclamando palavras soltas, das quais eu só consegui extrair "fome".
Ele estendia os bracinhos ao pescoço da mãe, por sua vez inerte, de olhos fixados no chão do trem.
Ela parecia cansada, exausta. Da vida.
Meus olhos encheram-se de água, como os da criança, e desviei-os, tentando prestar atenção a outros seres, mas tudo o que eu via era um velhinho com uma mala gigante às costas, tão incolor quanto a mãe e o filho, e uma outra senhora de bengala, da mesma cor encardida, que há meses não via água em abundância, com bochechas caídas, cansadas.
Por fim voltei aos olhos ao menino, que ainda choramingava e agora, por vezes, passava uma das maozinhas, enquanto a outra esfregava os olhos, na barriga, como que tentando acalmá-la.
Quando me dei por mim, eu quase derramava lágrimas, minhas sobrancelhas envergavam-se quase tanto quanto as dele, e eu contraía os lábios.
Tive um ímpeto gigante de levantar, pegá-lo, fazê-lo encaixar as perninhas magras a meu quadril, levá-lo até a lanchonete mais próxima e comprar algo que o satisfizesse, enquanto eu sorriria para ele e o afagaria os cabelos, ralos e sujos.
Contudo, quando o condutor anunciou a próxima estação, a mãe, que mais parecia uma rocha, cansada demais para se abalar com as lamúrias da criança, levantou-se e pôs-se para fora do metrô.
E eu fiquei ali, com aquela sensação de que algo havia sido arrancado de mim, rodeada por outras pessoas que talvez precisassem de mim.
Duas estações depois eu desci, e aí eu já tinha esquecido tudo o que havia passado, já me focava em mim mesma novamente. Voltando a ser a cidadã egocêntrica que o sistema me ordena ser.
Hipócritas, nós somos os encardidos.

Natália Albertini.

Nenhum comentário: