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Desequilíbrio.

Caminhava sem pressa, despreocupada, mas sem perder a postura. Segurava as duas alças da mochila preta de maneira frouxa. Tinha os olhos presos nos pés, vendo-os cruzar um na frente do outro. Repentinamente levantou a cabeça, pois o cheiro familiarmente agradável da loja em frente chegara às suas narinas. Entretanto, neste ato, seu olhar também se levantou e acabou por deparar-se com uma figura surpreendente. A moça quase se desequilibrou, cruzando demais os pés, quando seus olhos bateram de frente com aquela figura de cabelos cor de ouro e meio despenteados, olhos fundos e claros, maxilar trincado, rosto quadrado de lábios e nariz finos, pele clara, mãos enfiadas nos bolsos dos jeans e ombros tão largos que faziam a camiseta azul escuro esticar. A figura a encarou, mas não de maneira tão profunda assim, já que passados dois ou três segundos ela percebeu que só estava olhando para um pôster de filme. Abriu um pequeno sorriso, como que desprezando a si mesma pela imensa idiotisse. E pen...

We're Going to Jackson.

Minhas mãos estavam apoiadas na mesa de madeira, e no meio delas estava posicionada um recipiente metálico coberto por um pano de prato branco de bordas vermelhas de crochê. Tinha as costas eretas e a cabeça direcionada para minha diagonal esquerda, pois essa era a direção dele. A cozinha era simples, toda lígnea, mesclando tons claros e escuros, mas principalmente formada por antiguidades. O batente da porta também era daquele material, e era onde ele se apoiava, espiando o cômodo ao lado. O rapaz se virou e num milésimo de segundo, estava passando por detrás de mim. Tentei reconfortá-lo: - Você está mais aflito que eu! Não obtive resposta verbal. Ao invés disso, ele me puxou pela mão, deixando na mesa a torta que eu tinha levado, e começou a me arrastar para o cômodo ao lado. Este, por sua vez, era também marcado por poucos móveis: apenas uma mesa e quatro cadeiras, todos também lígneos. As três pessoas, duas mulheres e um homem, que estavam sentados, sorriram ao me ver, o que me tra...

Folhas de hortelã.

Tudo o que via era vinho escuro. As maozinhas seguravam com força aquele pano pesado em volta de seu corpo, deixando á mostra as oscilações que sua barriga fazia, descendo e subindo, puxando e expirando o ar. A cortina era bastante grossa e grande, mas não comprida o suficiente para lhe encobrir os bem lustrados e afivelados sapatinhos brancos de vinil. A sala de estar tinha móveis aconchegantes e tapetes desenhados. Era um ambiente de cores quentes e escuro, mas bem iluminado por janelas que iam do teto ao chão em puro vidro. - Que estranho, eu poderia jurar que vi uma pequena garotinha entrar aqui... Um cheiro suave a familiar de hortelã chegou às pequenas narinas, ainda que por detrás daquele grosso brim cor de vinho, causando um pequeno surtos de risadas abafadas. Aquele odor sempre trazia à pequena criança uma sensação de bem estar e segurança. Mal sabia ela que se lembraria daquilo pelo resto de sua vida. Á medida que percebia a presença daquela outra grande criança que brincava ...

Last Tango In Paris.

As pernas cruzadas por debaixo da mesa continuavam inquietas ao som da melodia de fundo. Os dedos tamborilavam na superfície metalizada que apoiava uma taça ornamental de algum drinque vermelho, bem como o vestido. Este, decotado nas costas e amarrado no pescoço formando uma frente-única estonteante, realçava-lhe os ombros e braços finos e claros, como também seu pescoço comprido e charmoso que fazia um caminho bem delineado até traços angulosos de seu rosto feminino e misterioso. Seu cabelo estava preso num coque volumoso e escuro, de maneira a combinar com os olhos pintados e cheios de ondas revoltas. Num ambiente escuro e marcado por colorações quentes, sua presença ainda assim se destacava. Por ter sido bem observada, uma mão mais forte e morena que a sua logo se estendeu para ela. O pequeno e de bem selecionado público bar argentino logo se iluminou com todo o brilho daquele casal que se perdeu em ochos, ganchos e tango pelo resto daquela madrugada de outubro. Natália Albertini.

Dor de ouvido.

Esse aqui, meus amores é um pedido de desculpas imeeeenso. Por favor, não fiquem chateados comigo, eu sei que lhes devo contos e mais contos, mas acontece que tô passando por uma fase bem estranha. Essa semana principalmente tá bem complicada. Essas amígdalas não voltam pra onde deviam ficar nunca, que inferno! Fica incomodando, argh... E de novo tenho percebido que quero cada vez mais ficar sozinha. Os assuntos dos outros não trato com desprezo, óbvio, mas simplesmente parece que não tenho mais aquela necessidade que tinha antes (ainda que pouca, comparada à de outras certas pessoas...) de saber deles. Sobre os meus assuntos? Eu os organizo numa conversa comigo mesma, e juro que todas as vezes que falei algo sobre mim mesma para terceiros nesta semana, foi por ter me obrigado, só para ver como sentia aquilo saindo. E o que senti? Exatamente nada. E essa necessidade de externar as coisas tem se perdido cada vez mais... Eu só não quero me tornar mais uma Carrie (era só o que me faltava:...

Vai, vida, mas não esquece de voltar depois.

Acho divertido pensar que ainda hoje de manhã eu estava com bolhas e vergões espalhados por todo o meu corpo enquanto tomava injeções, soro e me apaixonava pelo médico; e mais tarde já estava super bem, fantasiando a noite do dia sete de março, me olhando no espelho da loja com o vestido verde de vampira (segundo Fefê). E é desse balanço, desse vai-e-vem, dessas ondas, desse oceano da vida que eu gosto. Natália Albertini.

Pra ninguém ler.

Esse calor infernal que envolve e sufoca meus pensamentos como um abraço de urso ás vezes me irrita. E não sei se o mais irritante é o calor ou meus pensamentos, ou se simplesmente é a combinação desses dois elementos desgraçadamente persistentes. É só que um cansaço tão grande me abateu hoje. Não, óbvio que eu não estampei isso no rosto pra todo mundo vir me perguntar o que eu tinha. Dei risada como sempre dou, sorri como sempre sorrio, abracei como sempre abraço, andei como sempre ando, engoli como sempre engulo, assim, empurrando, escondendo até de mim aquilo que talvez não seja muito agradável de se descobrir. Se ainda fosse um nome só que me confundisse. Mas acho que são até dois (ou mais?) que estão me perseguindo por esses dias. E não o fazem por eu suspirar por eles muitas vezes, não, é exatamente pelo contrário. É exatamente por eu não fazer isso. É, mundo. É, blog. É, olhos curiosos e pacientes que leem [sem acento, de acordo com a nova (estúpida) regra gramatical], é isso. É...