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Ela fica ali, jogada àquele gramado minimamente verde. Tem nos ouvidos pequenas coisinhas brancas que parecem emitir algum som. E pensar que antes ela só gostava da minha voz... Ela se joga ali, com um trecho da cintura de fora, achando que pode me provocar sem ter o troco, ora essa! Dedilho, então, sua franja, bagunçando -a. Ela, sem nem sequer destrancar os cílios, arruma os cabelos alaranjados de volta e retorna à inércia. Irritado, balanço o topo das solitárias árvores que a cerca, fazendo uma ou outra folha cair aqui e ali. Ela nada, deixa os lábios ali, meio-abertos, me tentando a tocá-los. O faço, secando-os, mas ela passa a língua por eles, umedecendo -os novamente. Passo meus braços, suaves, por seus quadris , arrepiando-a. Ela, que ontem atirou desesperos e desaforos a mim, como um tapa em meu rosto, sorri de canto e, sem muitos movimentos, faz com que o som daqueles pontinhos brancos aumentem. Não! Você deve ouvir A MIM! SOMENTE A MIM! Ora, que penso eu? Me acalmo, a deixo...

Verde, Vermelho, Preto.

Verde. Vermelho. Preto. Verde. Vermelho. Preto. A sequência das luzes coloridas se repetia, se alternava e se misturava freneticamente, às batidas da música ensurdecedora que fazia o chão da casa vibrar. A moça tinha as voluptuosas pernas de fora, numa saia curta, e as costas à mostra, numa blusa propositadamente rasgada. Balançava o corpo, dando ombradas brutas e cabeçadas violentas nas ondas de som, atingindo-as com força ao mesmo tempo em que as usava para embalar os membros de maneira graciosa. Os olhos iam fechados, orgulhosos demais para encarar qualquer um. Os cabelos iam soltos e bagunçados, sendo revirados a cada movimento de cabeça. As mãos, aneladas. De longe, ele, com os olhos, lhe ateava fogo, a via queimar sem piedade, em chamas altas. Tomava os últimos goles da vodka pura e sentia a garganta arder em fogo, bem como ela ardia. Passou a mão pelos negros e espessos cabelos e tomou passadas largas, decididas, imponentes. Ela sentiu uma presença intimidadora se aproximando e ...

Melodia.

Esticou a canga sobre a esteira, naqueles incontáveis e minúsculos grãos de areia. Tinhas mexas do cabelo trançadas e enxarcadas , bem como a roupa de banho e o resto do corpo. A água salgada ainda fresca escorria-lhe nuca abaixo, pelos ombros e braços, pelas ancas e pelos quadris . Pôs-se de joelhos sobre as cores que acabara de esticar sob o Sol e então deitou-se com as costas para cima, apoiando a cabeça nos braços cruzados. A inspiração calma e a expiração sossegada faziam os ombros subirem e descerem delicadamente. Os raios amarelamente lânguidos lambia suas costas de forma esponjosa . A sombra do prédio atrás da orla começava a se espreguiçar à areia. Abriu os olhos devagar, com os cílios empoeirados. Passou a língua pelos lábios e, com o cenho franzido, girou a cabeça para saber onde estava. O sol havia dado espaço à imagem projetada do prédio, em cinza claro, ao bege. Envergou o corpo para trás e avistou sua irmã, sentada numa cadeira, com os pés enfiados nos minúsculos e i...

Tigres.

Com um coque bagunçado ao topo da cabeça e a testa limpa, entrou no elevador. Tinha o corpo confortável e leve vestido num vestido ralo, roxo, liso. Os pés a chinelos. Deu bom-dia à grávida e ao homenzinho uniformizado de mochila às costas, prestes a ganhar um irmaozinho . Nem se deu ao trabalho de olhar seu reflexo. Só checou os bolsos: um tinha a chave, o outro, o celular. Enquanto se perdia em sua reflexão bolsínea , a mulher grávida de cabelos dourados e óculos de sol grandes disse, encarando o abdominal da moça: - Ai, queria ser mocinha assim outra vez... Queria poder usar uns vestidos fresquinhos assim! O coque quase se desfez. Os olhos de cílios ainda não pintados ergueram-se às lentes do rosto em frente, interrogativos . O suspiro da mulher foi perceptivelmente nostálgico, longe da inveja. A moça, dissimulada, soltou um leve muxoxo em forma de risada, com os lábios retorcidos à esquerda. Quando a mãe e o filho saíram do elevador, se despediram. Sozinha, silenciosa, encarou...

Areia nos dentes.

Me pus de pé. Abaixo de mim, os minúsculos e infinitos grânulos de areia me pontilhando os pés descalços. Acima de mim, a noite negra e mansa, levando agulhadas de estrelas. A única luminosidade era a dos postes lá, bem atrás de mim. Eu, sozinha na praia. Só eu e a noite, silenciosas, compactuando. Eu prometi guardar seu segredo, ela promete guardar o meu. Assim, certa da ausência de testemunhas naquela noite de fronha, deixei os chinelos e a larga camiseta ali, jogados à imensidão bege e macia, afável, compreensiva . Dei sete ou oito sedosos passos. A gélida e plasmática água salgada me toca os tornozelos. Meus ombros descem em agradecimento àquela sutileza que me serve de consolo ao calor pegajoso. Mesmo de costas, sorrio para toda a cidade e as almas que deixo para trás. Enquanto uma melodia suave e de lençol me embala a mente, caminho para dentro da massa abrangente e salgada, sem ondas, carinhosa. Mergulhei sob uma das marolas que vêm me saudar. Meu cabelo escorria pelos ombro...

Quatro asas.

Livros, cadernos, lápis e canetas scattered on the table . Bzzzzzzzzzz . Ela estudava arduamente. Bzzzzzzzzzz . Escrevia, lia, anotava, relia, falava sozinha e escrevia mais um pouco. Um post - it aqui e um marca-páginas ali. Bzzzzzzzzzz . CAZZO ! , ela pensou enquanto procurava pela maldita abelha! na cozinha. Achou-a voando ao redor das três lâmpadas fluorescentes . Angustiada e brava, simultaneamente , com o zunido incessante daquele inseto , encarou a pequena abelha furiosamente. Bzzzzz...zzzzzz...zzzzzzz. Foi quando aquela minúscula bolinha amarela e preta sentiu suas asas falharem por alguns instantes e começou a girar no ar, caindo na direção dela, à mesa. Caiu, impotente, a seus pés, sem conseguir levantar voo do chão. Ela sorriu de canto, divertida com o acontecido, e bateu com o chinelo sobre a zunidora do inferno! . Duas ou três horas depois, ela continuava à mesa, persistente em seus estudos. Tiriti . Lia mais um pouco, anotava nos livros. Tirititi . Colava os post -...

Travesseiro.

A escrivaninha comprida e lígnea , bege claro. A claridade diurna passando pela janela, atravessando o tecido fino da cortina quase branca. As mãos cheias de anéis e o pulso esquerdo com um relógio digitando incessantemente. O cabelo, morno, caído aos ombros, dourado. As pernas cruzadas, os pés de toe nails azuis e rasteirinha trançada balançando, despreocupados . O vestido confortável, leve. O computador emitindo as melodias de Michael Bublé . Natália Albertini .