segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Areia nos dentes.

Me pus de pé.
Abaixo de mim, os minúsculos e infinitos grânulos de areia me pontilhando os pés descalços.
Acima de mim, a noite negra e mansa, levando agulhadas de estrelas.
A única luminosidade era a dos postes lá, bem atrás de mim.
Eu, sozinha na praia.
Só eu e a noite, silenciosas, compactuando.
Eu prometi guardar seu segredo, ela promete guardar o meu.
Assim, certa da ausência de testemunhas naquela noite de fronha, deixei os chinelos e a larga camiseta ali, jogados à imensidão bege e macia, afável, compreensiva.
Dei sete ou oito sedosos passos.
A gélida e plasmática água salgada me toca os tornozelos.
Meus ombros descem em agradecimento àquela sutileza que me serve de consolo ao calor pegajoso.
Mesmo de costas, sorrio para toda a cidade e as almas que deixo para trás.
Enquanto uma melodia suave e de lençol me embala a mente, caminho para dentro da massa abrangente e salgada, sem ondas, carinhosa.
Mergulhei sob uma das marolas que vêm me saudar.
Meu cabelo escorria pelos ombros, esticando-se ao máximo para me tocar os quadris.
O biquíni se enxarcava.
Continuava caminhando para o centro da massa, que já agora me envolve em seus líquidos e pesados braços marítimos.
As luzes ficavam mais distantes, longíquas.
Ali no meio, só os sussurros salgados e sutis, silenciosos, das semi-ondas.
Só a escuridão, o negro, o reflexo desfocado do prateado astro-rei ao inverso.
Minha visão em nenhum momento se voltara para a orla da praia noturna.
A todo instante, se manteve fixa no horizonte, no oceano atingindo outros continentes.
Minha ânsia de engolir toda aquela água como se fossem minhas próprias lágrimas para, assim, atingir minhas metas, me corroía.
Respirei fundo, já imersa dos ombros para baixo.
Lancei um bom e último olhar, suspirando, à minha mãe noturna, a Lua.
Com os cílios úmidos, sem saber se o sal era interno ou externo, fechei o azul de meus olhos e deixei que o azul do mar me envolvesse por completo.
Depois daquilo, a única e última outra vez em que a vi, refletindo no céu, branca e cheia, serena, foi dali mesmo, de debaixo de toda aquela água.
E ela me ajudou a atingir o fundo.

Ps.: que melodrama...
Ps2.: desculpem-me pela ausência, mas estava sem vontade e meio ocupada!
Natália Albertini.

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