domingo, 1 de novembro de 2009

Pôr-do-Sol

O cheiro dos bancos couriáceos misturado ao ar condicionado ocupava todo o interior o automóvel importado. O Sol de fim de tarde passava pelos vidros, tornando realmente necessário o uso dos óculos escuros por ambos.
O carro era guiado através de ruas calmas, bem arborizadas, e tinha como destino a Praça do Pôr-do-Sol.
Aparentemente, ele dirigia calmo, e ela só olhava pela janela com um sorriso de canto, despreocupada. Internamente, montanha-russa de ambos os lados. Subindo e descendo, girando em loopings insanos.
As pernas, que o vestido deixava à mostra, pareciam não encontrar maneira certa de ficarem: retas, pareciam desleixadas; cruzadas, muito vulgar; joelhos distanciados, muito masculinas; joelhos fechados, tímida demais. E os braços?
Ai, meu Deus, os braços! Cruzados, ao lado do corpo, no colo ou um mexendo no cabelo e outro encostado no vidro?
"Será que eu escolhi a roupa certa? Será que eu falei demais ou ri muito alto? Oh, céus, será que...?", pensava a garota, enquanto tudo o que demonstrava fisicamente era tranquilidade e leveza de espírito.
Ao mesmo tempo em que ela subia e descia com as traves do vagão abertas, ele era chacoalhado de ponta-cabeça.
As mãos e os pés estavam firmes na direção, contudo, tudo o que passava em sua mente lhe causava sérias vertigens.
Aumentar ou abaixar o som? Elvis ou John Mayer? Falar do cabelo dela ou de seu vestido? "Nossa, que pernas... E como ela fica linda com essa cara serena...É...tem que ser agora. É ela! Assim que você descer do carro, cara, você vai abrir a porta pra ela e vai elogiá-la, e ai...pule do precipício. Mas e se ela recusar? Oh, céus..."
E então eles suspiraram simultaneamente. Olharam aos olhos um do outro e riram de forma sutil.
O sorriso permaneceu no rosto durante um bom tempo, enquanto, em silêncio, se perdiam em novas reflexões, o peito palpitando e a barriga com um vazio que ia e vinha.
Enfim ele estacionou o carro e precipitou-se em dar a volta, abrindo a porta para ela.
E a montanha-russa de repente virou um abismo escuro pincelado com asas de borboletas.

Natália Albertini.

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