sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Vertigo.

O sol reluzia em sua pele, a camiseta preta parecia reter mais luz do que o usual, porque lhe queimava as costas, a calçada já parecia dura demais e a parede, pedregosa em excesso para que recostasses suas costas ali. Mas apesar daqueles fatores externos, o rapaz continuava ali, firme, divertindo-se com amenidades, esperando as horas que não passavam.
Uma de suas bandas preferidas se apresentaria naquela noite. Mas, meu Deus, ainda eram duas da tarde, faltavam exatamente oito horas para os portões serem abertos... Ai, que agonia...
Foi então que seu fluxo de consciência se interrompeu completamente. Por um ou dois segundos, seu cérebro se ocupou com um intenso branco e sua respiração falhou. A boca lhe pareceu seca, as mãos, de repente molhadas, a camiseta preta ainda mais quente (o que antes lhe tinha parecido impossível).
Seus negros olhos não conseguiam desgrudar da figura que se aproximava gradativamente, em passos calmos e seguros, indiferentes a ele. Era ela.
Pôs-se de pé num pulo só, arrumou o cabelo, esfregou os olhos, sem os desgrudar dela, ajeitou os jeans e endireitou a camiseta. Sabia como ela gostava que fizesse.
Seus amigos, alguns à direita, outros à esquerda, se levantaram gradualmente para cumprimentar a dupla de garotas que se juntou a eles. Ele engoliu em seco, incapaz de parar de fitá-la.
Enquanto elas cumprimentavam a todos, ele se posicionou ao fim do grupo, de modo que seria o último a cumprimentá-la.
Não conseguiu achar forma correta de recebê-la, mas balbuciou algumas sílabas, treinando silenciosamente, e assim que ela dirigiu os grandes olhos azuis a ele, abriu os braços de maneira acolhedora, deixando o espaço perfeito para ela. Seu corpo sentia saudades do dela há muito tempo, nunca esquecera sua textura e tamanho. Estava na expectativa, só dependia de um ou dois passos dela para completar o reencontro.
Contudo, ela não os deu. Manteve-se estática onde estava, com um olhar que não era nem desdenhoso, nem irritado, era só indiferente. A garota meneou a cabeça e se limitou a levantar sutilmente um dos cantos dos lábios, na imitação de um sorriso, e logo depois voltou o rosto para sua amiga e os outros amigos dele.
Seus ombros caíram, seus braços ficaram flácidos, seus lábios desceram numa visível careta desapontada. Sentiu uma terrível vertigem que fez seus joelhos falsearem, quase o derrubando ao chão.
Aquilo era... Completamente imprevisível, bem como foi a chegada dela. Só que ao contrário. Porque vê-la chegando foi espetacularmente bom, mas em contrapartida, vê-la ingorando-o foi inexplicavelmente frustrante.
Sua cabeça dava voltas e mais voltas, e ela nem sequer olhava para ele, nem sequer dirigia aqueles olhos aos seus, ao seu desespero tão visível.
O pequeno grupo se envolvia em previsões e esperanças relativas ao guitarrista, à setlist etc. enquanto ele se perdia em devaneios, enquanto seu corpo almejava por ter o dela em seus braços, nem que fosse pela última vez, para se despedirem da maneira correta.
O Sol de repente lhe ofuscou os olhos, forçou-o a fechar violentamente as pálpebras. E quando foi capaz de abri-las de novo, a garota já tinha sumido, já tinha ido embora, já o tinha deixado ali, desamparado, esperando por ela novamente.
E daquela vez tinha quase certeza que era em vão.

Ps.: é...sei lá, só saiu...
Natália Albertini.

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