terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Tatuagem dela.

Vinte para as quatro. Duas horas e vinte antes de ir embora.
Era sábado, dia de maior movimento na livraria. Ele próprio já havia atendido uns bons dezessete clientes, interessados nos mais diversos gêneros literários. Sua cabeça doía, já não aguentava mais olhar para a tela daquele computador.
Numa de suas checadas na estante de literatura estrangeira, sua predileta, viu uma figura que lhe prendeu a atenção. Era uma garota de quase vinte anos, que passava os dedos nos livros, lendo e absorvendo os títulos com as próprias falanges.
Ela tinha o cabelo graciosamente desarrumado, num tom de castanho claro. Tinha traços marcantes, a exemplo de um maxilar bem delineado e sobrancelhas curvas. Os cílios eram longos e charmosos. Os olhos, maciamente azuis. Os lábios tinham um toque de palidez vermelha que os avolumavam.
Não prestou atenção nas vestes dela, o que mais lhe interessava era o semblante e as mãos da moça. Eles eram tão contraditórios. A face exibia mistério e concentração, talvez até um pouco de equilíbrio, enquanto as mãos exalavam apressada curiosidade, correndo pelas letras coloridas, acariciando-as e lendo-as.
- Moço, por favor, você tem O Pequeno Príncipe? - uma voz muito próxima o tirou de seu transe.
Ele voltou os olhos ao computador e em seguida à mulher à sua esquerda.
- Ahn... - sua mente relutou, se prendendo à garota - Temos, sim.
- Você pode pegar pra mim?
Mas os livros estavam no andar de baixo, se ele fosse até lá, talvez quando voltasse as mãos leitoras não estivessem mais lá. Ele não podia deixá-las. Antes que pudesse indicar o local do livro, a cliente continuou:
- Ah, e gostaria de saber o preço de três outros livros, tem como?
O atendente ficou ali, imóvel, impossibilitado de tirar os olhos da moça, incapaz de recusar-se a atender a cliente. Balbuciou:
- Sim, claro, vamos até lá embaixo - e foi quase perceptível o tom de arrependimento em sua voz.

Dez para as quatro. Ela não está mais lá, claro. Que droga!
Voltou ao seu computador e dirigiu o olhar à estante de estrangeiros. Nada, óbvio. Ela havia saído.
Droga, droga, droga!
Na verdade, não sabia ao certo porque se sentia daquele jeito, mas algo o fragilizava quando pensava que nunca mais a veria.
Foi quando, como que relampejando, ela passou logo à sua frente, com um livro às mãos, se direcionando ao caixa.
Por um centésimo de segundo, seu olhos se cruzaram.
Irreversibilidade.
Ela o figsou, tatuou-a nele.
Aos olhos dele, ela não havia nem sequer o notado, havia apenas visto alguém ali. Mas foram também seus olhos que se deram por conta que ela não era comum, e que de fato pensaria nela mais tarde.
Não conseguiu desviar o olhar dela, observou-a na fila, depois pagando pelo livro, depois guardando-a na bolsa e então se dirigindo à saída.
Fique aqui mais um pouco, por favor.
E de repente ela olhou pra trás, sem motivo aparente. E seus olhos se cruzaram de novo.
Shiver.
Então se foi.
De verdade.
E pra sempre.

Mais tarde naquela noite, segundos antes de cair no sono, ela cruzou sua mente.
Frio na barriga, arrependimento e amor platônico.
E então ele desejou ter falado com ela, pedido o telefone dela ou coisa assim. Era tão triste dar-se por conta que talvez jamais a veria novamente... Por quantas vezes já não tinha passado por aquilo?
Por quantas vezes já...
Sono.

Ps.: e vice-versa...
Natália Albertini.

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