domingo, 28 de fevereiro de 2010

Trezentos e sessenta graus

Há algum tempo eu não sentia essa reviravolta assim tão presente. Há algum tempo eu não fincava minhas unhas em minhas coxas assim tão forte. Há algum tempo eu não esmagava meu maxilar assim tão intensamente. Há algum tempo eu não colocava os pés no chão.
Não sei se é esse clima, essa chuva, esse friozinho, ou se é algo completamente interno, mas hoje o dia foi especialmente...estranho. Não diria que difícil...mas algo nesta linha.
Minha manhã foi uma espécie de torpor. Fiz alguns recortes, falei algumas besteiras, comi uns pedaços de pizza amanhecida e só.
Depois do almoço, fui à casa do vô (sim, sem formalidades gramaticais, porque aquele lugar não é "a casa de meu avô", mas simplesmente "a casa do vô").
Ainda em Santo André, na Av. Prestes Maia, essa maré chegou em minhas areias. E está relutando a se retrair até agora...
Aquela casa hoje exalou um ar diferente, quase pesaroso, tenso. Acho que ela também sente a falta de minha avó, do balanço na varanda, do quintal com as marcas de tinta colorida, dos triciclos e até mesmo do papagaio que cantava Parabéns Pra Você e chamava "Elza! Elza!" com aquela voz estridente.
Minha tia me deu um creme para os cabelos. E de repente me dei conta do quanto ela significa para mim. Assim, do nada.
Depois meu avô me abraçou tão...não sei, tão verdadeira e afetivamente... Tive vontade de agarrá-lo, deitar minha cabeça em seu ombro, chorar desesperadamente e pedir-lhe que jamais me deixasse. Mas me contive, simplesmente engoli o pranto, por mais que me doesse.
Tomei café e comi um pedaço de torta de limão.
Tive minha primeira driving lesson.
Voltei pra casa, vi meus avós e conversei com meus pais.
Não sei ao certo o que é. Só sei que o dia todo esse maré fica indo e voltando, subindo e descendo. As lágrimas vêm e vão.
Até agora não derramei nenhuma, mas meu maxilar e minhas pernas já estão dilacerados.
Eu não sabia que a vida de uma pessoa podia girar sobre tantos eixos.
Minha cabeça se desdobrou em mais de quinhentos assuntos.
Eu nem sabia que era capaz me preocupar com tanta coisa assim.
Estou girando agora em torno de duzentos e oitenta graus.
Da minha mente saem trilhas para os mais diversos pontos.
E o que me assusta é que eu acho que isso não é nem o começo. Acho que estou só vislumbrando o que é ter uma vida adulta. Acho que na verdade minha cabeça vai girar, mais pra frente, num ângulo de trezentos e sessenta graus, e isso é muito sério.
É isso que chamam de amadurecer?
Porque se for, por favor, estique sua maozinha e aperte aquele botão vermelho que indica PARADA IMEDIATA.

Natália Albertini.

2 comentários:

Myh disse...

escreveu bem, gosteii.


beijão

Frederico Vaz disse...

Se a vida fosse simples como um quarto branco de BBB hein?... Adorei o post vc sabe conduzir as palavras para nos envolver. Perfect!