quarta-feira, 31 de março de 2010

Abraços Interrompidos.

Entremeio à explicação de algum exercício, senti algo se movendo em minhas costas.
Voltei o rosto para trás e encontrei uma das garotas ajeitando o laço de minha blusa.
- Something's wrong? - perguntei com um sorriso morno.
A menina magricelinha, de cabelos escuros, curtos e lisos e olhos claros me olhou e meneou a cabeça, negando. Devolveu-me o singelo sorriso e, como que intuitivamente, estendeu os bracinhos ao alto e colocou as pequenas mãos em meus ombros.
Minha vontade foi de virar-me completamente para ela, abaixar-me e envolvê-la com meus infinitos braços, abraçá-la até o fim dos tempos.
Ela era a tradução perfeita da pureza e da inocência misturadas a certa malandragem. Ela era a tradução perfeita da palavra infância.
Tive vontade de abraçar todos os meus cinco bebês (de sete e nove anos), morder-lhes e beijar-lhes até me sentir exausta. De pedir-lhes que, por favor, jamais crescessem. De lhes implorar que continuassem infinitamente assim: pequenos. E meus.
Entro agora numa nova fase da vida. A fase da qual mais tinha medo, aquela que me fazia estremecer só de ouvir falar.
Minha função continua a mesma. Continuo professora. Só meus alunos e meu local de trabalho se modifica. E minhas bonificações.
Não me arrependo, pois sei que estou caminhando adiante. E não deixo nada para trás. Levo um pouco desses dois anos comigo, e deixo parte minha com eles.
Acontece simplesmente que ter de dizer àquelas crianças hoje que eu as deixaria foi uma das coisas mais agoniantes que já fiz em toda minha vida.
Eu sei, eu sei. Estou com elas há nada mais que dois meses, mas ainda assim são tão minhas.
Hoje as pintei de coelhinhos e lhes dei bom-bons. Brincamos de cabra-cega. E tudo isso me faz um bem inimaginável. Incompreensível para quem vê de fora.
É como se eu estivesse me despedindo de minha própria infância.
É como se eu quisesse abraçá-la até não ter mais forças, mas fosse impelida socialmente a deixá-la ir.
Não sou do tipo que se arrepende. Mas me arrependo profundamente de não tê-las abraçado.

Natália Albertini.

Um comentário:

Yoseff disse...

hmmm juro que imaginei a cena de vc agarrar elas e morder hahaha!