terça-feira, 30 de março de 2010

Míope.

Num dia desses eu estava no carro. Minha mãe me levava ao terminal de trólebus.
- Você tá adorando a faculdade, né?
- Demais - respondi quase que intuitivamente.
Ela sorriu de canto, com uma cara pensativa. Eu sabia que havia mais por vir.
- Você não sente saudades do colégio?
- Não, mãe - sem hesitar.
- Nem dos professores?
- Não.
- Nem dos seus amigos?
- Não.
Ela mudou de marcha.
- Como? Por quê?
Sorri, conformada com sua pergunta previsível.
- Eles foram um capítulo da minha vida. Vou deixar de ver muitos deles. Alguns ainda vou encontrar de vez em quando. E você sabe como eu sou com as pessoas e as coisas...
- Eu sei. Só acho engraçado você não sentir falta de nada assim.
Tirei o sorriso do rosto. Então ela acha engraçado. Não seria isso trágico? A pessoa mais egoísta do mundo...
- Foram eles que me fizeram chegar até aqui. São como minhas pernas. Me impulsionam aonde quer que eu vá, mesmo que inconscientemente. Só tenho coisas boas a lembrar. É. Não sinto falta.
E o que mais me põe a pensar é exatamente isso.
Acho que tenho algum defeito de visão, porque cada vez que olho pra trás - e é aí que as pessoas dizem que bate a saudade - eu só consigo sorrir e ter vontade de ir mais pra frente ainda.
Miopia, talvez?

Natália Albertini.

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