domingo, 23 de maio de 2010

I'm leaving now.

Parei na soleira da porta.
Os pés reclamando dos bicos do par de sapato, as panturrilhas, do salto alto.
As mãos nos confortáveis bolsos da saia, escondendo a pulseira e o anel.
O cabelo preso no alto da cabeça, de forma despreocupada.
Os olhos azuis delineados por um preto intenso.
Esperei que ele me olhasse.
Seus olhos, como que de maneira ensaiada, quem sabe até mesmo proposital, pararam nos meus.
Por milésimos de segundos todos os nossos bons momentos compartilhados pasaram por minha mente.
Sem sorrir, desenhei com meus lábios: "estou indo embora".
Ele entendeu somente um dos dois sentidos possíveis.
Permaneceu sentado, me encarando como se tudo estivesse em seus conformes.
Não levantou para me abraçar dignamente. Dali mesmo, de longe, mandou-me um simples e comum beijo. Inespecial.
Permaneci mais alguns instantes parada, deixando que minha mente absorvesse tudo o que meu corpo absorvera em centésimos de segundos.
Estou indo embora...
Acho que demorei até demais, pois ele, pra mim, já fora há tempos.
Algum dia cheguei a vislumbrar que éramos amigos de verdade e de longa duração.
Enganei-me.
Profundamente.
Talvez algum dia volte a vê-lo. Mas tenho quase certeza que não será por livre e espontânea vontade.
Minha mente então assimilou que sim, eu estava conscientemente desviando meus caminhos dos seus. Assimilou a razão. Assimilou a emoção anulada.
Assimilou que algum dia já desejei todo o bem do mundo para ele. Assimilou que eu jamais o desejaria o mal. Assimilou que, mesmo ninguém compreendendo, eu aceitava as atitudes dele, embora não as apoiasse. Assimilou que eu estava indo embora.
Assimilou.
Parti, enfim.
De olhos escuros e sem um último abraço.

Natália Albertini.

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