segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Cílios entrelaçados.

Ele estava atrás do balcão da locadora de vídeos, largado à cadeira de rodinhas.
Eram quase nove horas da noite, fecharia o estabelecimento em poucos minutos. A ansiedade para isso se manifestava nele em forma de pálpebras sonolentas, pesadas, e membros lânguidos.
Vestia uma camiseta lisa, preta. Os ombros eram largos e magros. O cabelo caía-lhe ao queixo, escorrido, tão negro quanto as vestes, quase se misturando com a barba por fazer, os cílios e os olhos castanhos.
De súbito e sem motivo aparente, seu rosto, como que instintivamente, virou-se para a direita, encontrando a visão mais disturbadora que já teve: ela.
Não havia ouvido barulho algum, mas de alguma forma a garota estava ali, postada ao balcão, encarando-o tão curiosamente quanto ele o fazia.
Ela tinha a pele marcada pelo Sol, em tatuagens de biquíni à mostra pelo vestido tomara-que-caia.
Seus cabelos, escuros e volumosos, alcançavam-lhe a cintura. Seus cílios eram longuíssimos, e seus olhos eram quase que lilás de tão claros. A boca era carnuda, rosada.
O olhar que os prendeu por longos momentos era de pura curiosidade.
Não se conheciam, mas sabiam quem eram.
Ela era uma borboleta perdida há muito tempo.
Ele, a que nunca foi encontrada.
Tatuagem.
O motivo de sua ida àquele local, ela esqueceu, bem como ele fez com a vontade de trancar a loja.
Ficou de pé, ainda detrás do balcão, ainda a encarando.
Os olhos prendiam-se, trancafiavam-se.
Sem aguentar, ela puxou-lhe pela camiseta e fez com quem as bocas pusessem fim à agonia dos cílios e sobrancelhas, que seguravam com tanta força os olhos para que não saltassem.
O entrelaçar de línguas foi amargo, macio, esponjoso e suculento. As salivas corriam quente. Osculavam.
Só o balcão os separava.

A cortina balançando trazia de leve a luz da manhã.
Ela, só de calcinha, rolou para cima dele.
Sem dizer palavra, eles voltaram àquele olhar aprisionador, que os sugava tanto.
Era como se as íris e as pupilas algemassem aquelas que viam à frente, marcassem-nas a ferro, bebessem-lhe as cores.
O cabelo dela caiu sobre a face dele.
Os fios se misturaram, fazendo uma cortina em volta dos rostos, tornando só aquele pedaço escuro.
Ela tinha as mãos em sua barba.
Ele as tinha em sua cintura.
O olhar prosseguia, longo como os cílios, se violentando.
Sorriram de canto, num entendimento místico, sem que palavra alguma se fizesse necessária.
E então ela lhe chupou a língua e ele beliscou-lhe com força as nádegas.
De volta à selvageria, fecharam os olhos, impedindo, por certo tempo, os olhos de se encontrarem, como se pudessem controlar aquilo.
Meros mortais.

Quando se deixaram, talvez para sempre, os olhos dela eram castanhos e os dele, lilás.

Ps.: you know who you are. [:
Natália Albertini.

Um comentário:

Rafa. disse...

A arte da paixão sem classificação.