domingo, 3 de julho de 2011

Encaixe

- Então... Vamos mesmo fazer isso? - ela o encarou aos olhos.
- Sim.
- Não vai voltar atrás?
- Não mesmo.
Ela sorriu.
Ele, idem.
A esse ponto, as borboletas de cores pasteis já estavam calmas, embora ainda uma ou outra farfalhasse as asinhas por dentro daqueles estômagos, fazendo cócegas.
- Então está bem - como sempre, ela tinha dificuldades em parar de falar e em deixá-lo.
Ele assentiu com a cabeça, ainda a olhando com aqueles lânguidos e macios olhos verdes-mar, sorrindo com o canto dos lábios.
Ela baixou seus cílios, olhando com os seus azuis-turquesa para o chão.
Olharam-se de novo, como se aquela separação fosse durar uma eternidade, como se fosse a coisa mais difícil de se fazer. Não precisavam se tocar, os olhos por si só se prendiam.
Ela deu um passo pra trás, enfraquecendo o feitiço.
Ele não se moveu, não deixou de fitá-la por um segundo sequer.
Ela se virou, não tão pronta quanto pretendia, para partir.
Deu dois passos na direção oposta da dele, já de costas.
Todavia, algo a deteve. Algo que urgia para que os olhos se encontrassem uma última vez.
Virou-se, mas virou-se na certeza de que ele já havia desviado o olhar, de que ele já enxergava outros horizontes, de que seu corpo já havia saído do eixo de antes.
Erro.
As borboletas eriçaram-se e levantaram voo, desorganizadas, trombando umas nas outras e nas paredes gástricas dela.
Ele ainda a olhava, com a mesma ternura de antes e com uma pitada de dor, já que ela estava a partir.
Um de seus braços se estendia na direção dela que partia sem um último toque.
Havia feito tal movimento inconscientemente. Seu corpo buscava o dela sem a percepção do cérebro, sem racionalidade.
Ao vê-lo ali, parado, estendendo o braço para ela, já sentindo sua falta como ela já sentia a dele, desatou a andar de volta.
Os corpos se encontraram, ela segurou seu braço, antes estendido, e fez com que os lábios se chocassem.
Aqueles lábios, privados uns dos outros por um tempo demasiado longo, encontraram-se com a mesma sintonia de antes, provaram que em nenhum momento o esquecimento havia os tocado, a memória era sempre presente. Eram perfeitos.
Ele a enlaçou pela cintura, aproximando ainda mais os corpos. O dela ainda se encaixava no dele de maneira perceptivelmente harmônica. Confirmavam o que os lábios já haviam silenciosamente dito.
As borboletas rodopiavam, caíam e levantavam voo novamente, se multiplicavam e mudavam de cor.
O encontro das cinturas, dos braços, dos lábios, dos corpos e daquelas duas almas foi amarelo claro com uma pitada de verde no fim.

Natália Albertini.

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