quinta-feira, 21 de julho de 2011

Energyless

Ela andava despreocupadamente, com seu gingado habitual, balanço os lisos e curtos cabelos escuros.
Sibilava a letra da música que ouvia.
Chegou ao terminal de ônibus.
Escuridão.
Ela arqueou as sobrancelhas e diminuiu o passo, colocando a bolsa mais à frente do corpo.
Logo entendeu que a região encontrava-se sem energia.
Esquadrinhou o ambiente, apertando os olhos, adaptando-os ao escuro.
A claridade do dia já se esvaía por entre as nuvens, mas ainda ajudava a dissipar - ainda que minimamente - o preto generalizado.
Os vultos iam e vinham, andando com cuidado para não se esbarrarem.
Ela apertou o passo de novo e começou a atravessar o escuro, em busca da outra extremidade, onde a luz do dia, ainda que rala, a ajudaria.
Uma voz feminina vindo dos fones sussurrou low battery e desapareceu. Até seu próprio iPod a abandonou.
Ela passou a andar ainda mais rápido.
Mantinha os olhos à frente, como se usasse o próprio cabelo de cabresto, não ousava olhar para os lados. O escuro ainda era o que mais a amedrontava. Ou melhor, o que podia haver nele.
Algo, contudo, chamou sua atenção à direita.
Não teve tempo de controlar o corpo e dizer a ele que não virasse, seus reflexos foram mais rápidos.
O que viu foi nada menos que dois pequenos e brilhantes pontinhos vermelhos a flutuarem, a alguns pés de distância dela.
Suas sobrancelhas se arquearam de novo e seus ombros se ergueram em grande surpresa. Começou a suar frio
Mais à frente, outro par avermelhado também a encarava.
Outro susto.
Mais pressa aos pés.
Vamos, vamos, vocês podem fazer mais do que isso sem necessariamente correr.
Um hálito gelado em sua nuca.
Desatou a correr, segurando a bolsa perto do corpo.
Os olhos arregalados, o cabelo bagunçado, o peito arfante, as mãos trêmulas e os pés confusos.
Tão confusos que (AI, MEU DEUS, NÃO, POR FAVOR) se embaraçaram e arremessaram o corpo ao chão.
Ela caiu estatelada, naquele escuro desolador.
Tratou de recuperar a bolsa e o equilíbrio, mas ao se virar para trás, involuntariamente, os pares de olhos vermelhos, que agora pareciam centenas, não, MILHARES, já a haviam alcançado, incrivelmente ágeis.
Foi arremessada brutalmente ao chão novamente.
Ao tentar gritar, algo tapou-lhe a boca.
O completo escuro, antes dissipado pela vermelhidão, voltou a alastrar-se por todo o seu corpo.
Preto.

Natália Albertini.

2 comentários:

Ela disse...

adoro seus textos, parabéns pelo blog! Esse texto é muito forte me lembrou os contos de Rubem Fonseca!

Sabrina Araujo disse...

seu texto prende a atenção de quem está lendo, realmente muito bom!
Quem te influencia?