domingo, 17 de julho de 2011

Sardas.

Saia de cintura alta, camiseta de manga três quartos, botinas e jaqueta de couro, bolsa tamanho exagerado, óculos escuros, fones de ouvido brancos e livro numa das mãos.
Eu ouvia Vampire Weekend, entretida.
Olhos.
Olhos à minha cintura.
Detectei-os à minha esquerda.
Com os pés fixos ao chão do metrô em movimento e uma das mãos segurando firmemente um apoio, virei o rosto para a fonte dos olhos.
Nada.
Ninguém me olhava.
Os olhares pareciam ter vindo de um corpo masculino bem formado aos ombros e ao (hmmm, e que) pescoço e de um rosto incógnito, já que a cabeça estava abaixada, ocupada em ler um livro com figuras de arte barroca. Vi somente uma boina cinza encobrindo a cabeça indecifrável.
Dei de ombros.
Voltei a encarar as janelas do metrô.
Olhos.
Olhos à minha cintura.
Desta vez, fui mais rápida.
Virei o rosto novamente.
Choque.
Ele me encarava.
E era lindo.
Tinha a pele muito clara, com algumas poucas sardas, cabelos alaranjados, bem como os cílios, e olhos adocicadamente verdes. Seus lábios eram pouco rosados e, durante o choque das cores frias, me deram um sorriso de canto.
Suas sobrancelhas não se curvaram.
Nos encaramos, famintos.
Virei o corpo de frente, ele me olhou dos pés à cabeça, abrindo o sorriso e fechando o livro.
Trotei, segura, até ele, no fim do vagão.
Os corpos se colaram.
Minhas mãos acharam sozinhas os cabelos e o pescoço dele. Minhas unhas não tardaram a fincar aquela pele tão suculenta.
O entrelaçamento das línguas foi acridoce.
Ele me beliscava a cintura e as coxas, me puxando o cabelo para baixo.
Olhos fechados e mentes abertas.
Bem abertas.
O condutor anunciou a chegada à minha estação.
Pisquei.
Ainda ouvia a Vampire Weekend e ainda estava no mesmo lugar de antes, parada, com a cabeça torta, encarando aquele pedacinho laranja de felicidade matutina, imóvel.
Ele ainda sorria pra mim, com o interesse no livro perdido há muito tempo.
Eu não sorri. Jamais sorriria. Not that easy.
Me deleitou, porém, o agrado dele em me observar.
Saí confiante do trem, sem sua saliva e pele sob minhas unhas, mas com os olhos dele ainda me queimando as costas e, você sabe, um pouco mais abaixo disso.

Natália Albertini.

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