quarta-feira, 24 de agosto de 2011

My tears don't dry on their own.

Eu estava ao sofá de couro, entre meus avós maternos: ela, à minha direita, ele, à minha esquerda.
Eram meus únicos, os paternos haviam me deixado.
Meu tinha a atenção voltada para a tevê e a mão direita apoiada em meu joelho esquerdo, amigavelmente. Minha mão sobre a dele.
Minha apertava os olhinhos por detrás dos óculos e minha mão direita por dentro da esquerda dela.
- Olha só o que eu lendo - e ela se esticou para pegar um livrinho denominado 'Feliz Aniversário!' que me parecia estranhamente familiar.
- Era do seu avô.
Ah... Por isso eu o reconhecia. Era do Germano, pai do meu pai. Aquele que fechou os olhos em agosto do ano passado. E meu Deus do céu, já faz um ano, embora a dor ainda se alargue dia após dia.
- E olha só o que eu achei no meio dele.
Ela soltou minha mão, o que me doeu muito, quase fechei os dedos em torno do pulso dela, para que ela jamais me soltasse, mas manti a postura e cerrei o maxilar. Passou a folhear o pequeno livro com os dedos gordinhos e marcados.
A consciência da mão magra e fina do meu Osvaldo sobre meu joelho era pesada, nítida.
Minha avó parou as páginas e tirou do meio das poesias um pedaço de papel, entregando-me e dizendo:
- Olha!
Demorei a entender o que era, até que comecei a desvendá-lo.
Era papel em formato de um cachimbo. Na boca dele, estava escrito 'Papai'. Abri aquela forma e me deparei com os seguintes dizeres, gravados numa caligrafia infantil:
'Papai,
Com muito amor.
De seu filho,
Sérgio'.
Lágrimas gordas me brotaram aos olhos, respirei fundo.
Não sei se o que mais me doeu foi saber que aquilo era da infância do meu tio e algo tão particular que talvez ninguém devesse ter sequer posto os olhos, ou entender que meu havia guardado aquilo ali, escondido naquelas preciosidades, no meio de letras, por todos aqueles anos, provavelmente vendo-o toda vez que folheava o livro.
Remeteu-me à ocasião em que, um ano antes, minha tia, logo após a morte de meu avô, achara sobre o guarda-roupa dele uma caixinha com pertences de minha avó, falecida há dez anos.
Tive vontade de chorar pela falta que ele me faz.
E pela miséria em que vivo por não poder ter sua casa mais uma vez para me acalmar.
Acho, entretanto, que acima de tudo, tive vontade de chorar pelo esplendor daquilo tudo, pela capacidade que um ser tem de se recordar com afeto de outros, a despeito de qualquer discussão ou esquecimento figurado.
Apertei bem as mãos de meus avós ainda presentes e me obriguei a engolir o pranto.
Disse que tinha que estudar e vim logo embora, não suportei ficar mais nem um minuto na presença deles.
Não sabendo que ela me será privada um dia.
E essa dor já se faz dura, palpável.

Again and always missing you,
Natália Albertini.

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