quarta-feira, 10 de junho de 2009

Gotas.

A mochila pendurada nos ombros já incomodava, bem como o excesso de roupa, o pequeno espaço que o bolso oferecia às mãos e os pés começando a sentirem-se encharcados. Atravessou a rua e começou a andar em direção a um pequeno toldo duma padaria, debaixo do qual esperaria a chuva tornar-se menos intensa.
Quase chegando no destino, arregaçou todas as mangas que lhe cobriam o braço esquerdo para checar as horas. Mas além da constatação do horário, pôde sentir o contato da chuva com sua pele. Sentiu as pequenas gotas geladas batendo de leve em sua derme, cutucando, escorrendo, escorregando. Aquele contato fez todo seu corpo, embora coberto por sabe-se lá quantas blusas, inclusive sua nuca, onde os cabelos molhados se grudavam, estremecer, arrepiar.
Com agilidade, tirou a mochila das costas e a jogou ao chão. Começou a se despir, tirando a primeira, a segunda, a terceira e a quarta blusa, permanecendo somente com a regata azul que tinha por baixo de todas. Atirou longe os tênis e o par de meia, e ficou ali, só de jeans e regata, com os braços pendendo ao lado do corpo, com as pálpebras cerradas, sentindo a água tocar-lhe.
Deixou os cabelos se encharcarem, bem como o resto da roupa e de si própria. Esperava que a chuva não fosse somente água, mas sim sapos ou borboletas caindo do céu. Metamorfoses em si mesmos, aqueles pingos.
De tão intensa foi a precipitação interna, o frio exterior não mais se fazia presente. Muito pelo contrário, seu corpo parecia até sentir certa sensação de calor.
Passados alguns instantes, conseguiu fixar os olhos, anteriormente voltados para seu interior, no céu cinzento acima de sua cabeça. Viu os pingos pingando suas pontinhas, vindos de cima, daquele azul acinzentado. Viu que a mudança vinha de cima.
As gotas de chuva, naquele momento tão parecidas com girinos e ímagos, tocando suas maçãs do rosto, passaram então a se misturar com a chuva que seus próprios olhos externavam na esperança que, partindo do topo de seu corpo, de cima, pudessem lavar tudo o que viesse abaixo, transformando-o.
Não lembra de quanto tempo ficou ali na realidade. Só que a água de cima, tanto quanto a sua própria, a fizeram tão bem que criou asas coloridas e passou a coachar.
Pouco antes de esticar a comprida língua para fora e pegar uma das gotas como se fosse uma mosca, abriu os olhos e percebeu-se descoberta, suando frio e tremendo. Tentou juntar forças para gritar, mas não as conseguiu.
Simplesmente cerrou novamente as pálpebras e enrolou-se como num casulo, esperando a febre ser levada junto com a chuva surreal.
Trevas.

Natália Albertini.

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