domingo, 21 de junho de 2009

The Wall.

O cenário era composto somente por algumas árvores balançando de leve com a brisa suave da madrugada que aliviava em parte aquele calor quase insuportável e um muro que separava os dois extensos terrenos vizinhos.
A moça estava sentada, tinha uma perna de cada lado do muro, como se quisesse ter ambos os lados como chão firme. A mão esquerda se encontrava apoiada atrás do corpo, servindo de apoio para as costas inclinadas. O cabelo estava preso numa trança de raiz já bagunçada, uma vez que havia sido feita havia umas boas horas. O corpo estava meio á mostra, coberto somente por um shorts jeans e um top vermelho, além de um par de chinelos pendurados nos pés. O rosto estava fixo no rapaz à sua frente.
Ele, por sua vez, estava sentado de costas para o próprio terreno, que ficava à esquerda dela, como se negasse a condição de morar ali, como se só quisesse enxergar o lado dela. Estava sem camisa, como sempre, deixando visível a tatuagem do braço direito. Segurava numa das mãos uma garrafa da cerveja alemã que mais gostavam, bem como ela o fazia. O semblante dele estava travado em feições sérias e distantes, com os olhos fixos num ponto qualquer do gramado, embora refletissem uma mente que estava a milhas e milhas dali.
O silêncio atual agradava aos dois. Entretanto, após dar um grande gole na bebida de cevada, ela retomou a conversa que havia-lhes ocupado a noite toda e parte da manhã:
- Fazia tempo que não ficávamos até as duas e meia aqui fora, conversando - e sorriu de canto, num misto de satisfação e nostalgia.
- É... - ele respondeu automaticamente.
- Onde você está?
O rapaz sorriu e arfou de leve, distraído com a sinceridade na pergunta dela, e enfim voltou-se para encará-la:
- Voltei.
- Mas onde estava?
- Na minha ausência. E ai, pra variar, você leu minha mente e começou a falar sobre isso...
- Ah...- de novo o sorriso assimétrico.
- Você me amedronta.
Ela meneou muito levemente a cabeça, entretida com aquele comentário que ele reforçou com:
- Eu falo sério.
- O pior de tudo é que eu sei disso. E sei que não faz sentido.
Foi então a vez dele de entornar a garrafa e beber quase todo o líquido amarelado, refrescando a garganta e o peito, facilitando o diálogo:
- Você me faz rir. Muito. O que não é muito comum...
- E por isso eu te assusto?
- Também...
- E que mais?
- Eu consigo conversar com você. Contar até o que eu acho que não deveria contar...
- Mas você confia em mim, não?
- Como não confiaria? - e, com a cabeça, indicou o percurso de uma casa a outra, apontando a distância entre as duas moradias.
"Ótimo, então você só confia em mim porque estou longe o suficiente para tanto...", pensou a moça, mas se recusou a falar em voz alta. Poderia lhe ferir os sentimentos, deixou de lado, era boa em irrelevar fatos e palavras. Contudo, seu sorriso fugiu de seu rosto, deixando espaço apenas para um olhar vago que fingia observar as estrelas.
- Eu deveria ir dormir agora, antes de colocar todas as cinco cervejas pra fora.
- Eu disse que deveria ter comido - ela respondeu, num tom quase que maternal.
Não obteve reação, simplesmente sentiu um pequeno vento quando ele se voltou para sua própria casa e desceu do muro, se colocando de pé. Ela continuou com o olhar no céu, sem dirigi-lo ao rapaz que estava agora ao seu lado.
- Eu também devo entrar e...- e foi interrompida.
Foi surpreendida por um toque tão suave e inesperado dos lábios dele no ombro esquerdo dela que a fez arrepiar-se. Olhou-o, e por um momento seus olhares se prenderam, tornando aquilo bem mais interessante que qualquer estrela do céu.
Não foi necessário que ninguém sorrisse, suspirasse ou proferisse qualquer palavra mais; o olhar foi simultaneamente o boa-noite, o bom-dia e o muito-obrigado de ambas as partes.
Ela desceu e se pôs de pé do seu lado do gramado, sem perder o contato. Ao mesmo tempo, terminaram a cerveja e bateram as garrafas no muro, quebrando-as, repetindo o ritual de fim de noite e início de manhã que faziam sempre que se encontravam ali. Não sabiam porque, simplesmente tinham aquele impulso louco, como se os pequenos e tão perigosos cacos de vidro despedaçados representassem eles próprios, cada vez se fragmentando mais e mais. Todavia, de maneira estranha e até meio surreal, os pedaços de garrafa pareciam não ter se quebrado direito agora. Os dois suspiraram, inconscientemente desejando que da próxima vez a garrafa não se quebrasse, se mantivesse inteira por completo.
E assim cada um voltou para sua casa, de costas um para o outro, mas com a boca da garrafa quebrada na mão. Ela faria boa companhia para todas as outras ao lado das camas de seus donos.

Natália Albertini.

Um comentário:

Sérgio Muniz disse...

Adorei o que li aqui, de verdade.
Parabéns!!!


Tudo de bom.