quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

E se fosse?

O sofá estava apinhado. Os homens, todos uns brutamontes, amontoavam-se para assistir àquele finalzinho de tempo da partida de rugby. Todos ali, o mesmo grupo do ginásio e do colegial. O mesmo da faculdade. O mesmo de anos e mais anos.
Alguns torciam para o time de verde, os outros, para o de vermelho.
Apesar dos socos, gritos e movimentos bruscos, as canecas não derramavam nem um pouco de cerveja.
No sofá, que tinha lugar para apenas três, da esquerda para direita, estavam Roberto, Júlio, Dênis, Álvaro e Paolo, o dono da casa, sentado no braço do acolchoado.
Intervalo.
Depois de alguns suspiros, goles e pigarreadas, Álvaro deu início à pior parte daqueles encontros:
- E aí, Beto, como é que o tá o Renanzinho?
Os outros inspiraram fundo e tentaram transmitir calma e força ao amigo.
- Ele tá... desanimado. A Thalissa também, é claro... É tudo tão...difícil. Esse câncer nos deixa apavorados, sabem? Nós não sabemos até quando...até quando... - cerrou os dentes e se concentrou para terminar a frase - até quando o teremos...
Os amigos respiraram fundo novamente. Júlio, que estava a seu lado, deu-lhe um tapa no ombro, passando, naquele simples contato, todo o apoio e, quem sabe, os adiantados pêsames do grupo.
- É, Beto - emendou Dênis - não estou passando exatamente por isso, mas eu sei o quanto essas doenças assustam. A mãe da Lorena morreu de câncer...
Ainda que meio tímido, Paolo perguntou:
- E a Lorena, Dênis?
Os olhares se voltaram para ele desta vez.
- Ela está estável. Mas de vez em quando dá de rejeitar os remédios, ai as crises voltam...
Roberto disse:
- Câncer é difícil, mas ao menos a pessoa meio que está conosco o tempo todo... Esquizofrenia deve ser... - não conseguiu completar.
- E é - Dênis terminou, fechando os olhos por um momento e pondo um fim naquele assunto tão difícil.
Júlio direcionou-se ao mais alto dos cinco:
- Como estão seus pais, Álvaro?
Demorou um pouco a responder, mas prosseguiu:
- Estão...inconsoláveis - sorriu para disfarçar as lágrimas que lhe subia aos olhos - Eu sei que eles me amam muito, mas não tenho problema algum em admitir que a Geovannela era a paixão deles. Depois de terem visto as fotos para reconhecimento... Cara, eles ficaram...em choque. Vocês não fazem ideia do que o filho da puta fez com a minha irmã... - trincou o maxilar - Ele lhe arrancou toda a pele com ela consciente... Vocês têm noção do que é isso? - a voz falhou.
Algumas manifestações de pesares.
Dênis perguntou ao mais novo de todos:
- Júlio, e a Carlinha?
- Bem, ela não fala comigo... Mas ainda assim a Irene insiste em dizer que ela está indo bem. Vocês tem alguma ideia do motivo pelo qual ela não se aproxima de mim?
Os homenzarrões negaram, esperando o pior.
- Outro dia mesmo... Ela disse assim, na minha cara, que eu sou exatamente igual ao filho da puta que a sequestrou! - ele meneou a cabeça - A psicóloga diz que é só uma saída mais fácil, que a mente dela tenta pôr a culpa em alguém pra facilitar, e que é passageira... Mas vocês não imaginam como foi horrível ver nos olhos da minha filha todo aquele...medo! É! MEDO! De. Mim.
Suspiros.
Álvaro perguntou ao anfitrião, dando-lhe um amigável tapinha na perna:
- E por aqui, Paolo, como estão as coisas?
Ele inspirou e expirou antes de começar a falar.
- Na verdade, não sei. Eu sinto que a Andreia tá comigo só por pena... Ela me olha...diferente. Não consigo me aproximar, física E emocionalmente, dela faz uns bons meses.
- E o médico, que diz? - um deles indagou.
- O de sempre. Para não parar com o coquetel. Mas tenho minhas sérias dúvidas sobre isso... Talvez se eu par... - interrompeu-se, achando-se ao mesmo tempo covarde e corajoso demais.
- Nem pense nisso - outro soltou.
E numa cena quase que comitrágica, os cinco ficaram por alguns segundos quase na mesma posição: mãos apoiadas nos joelhos, canecas de cerveja encostada no peito e olhos fixados no chão.
Cada um preso em seu próprio problema e, ao mesmo tempo, nos dos outros.
Pensando em quanto queriam que a vida fosse tão fácil e colorida como era a uns bons anos atrás, que os cabelos parassem de cair, que as juntas não doessem, que a vida não fosse tão dura.
Pensando em quanto valia aquela amizade.
O jogo voltou.
Entretanto, as reflexões foram tão profundas que demoraram uns bons três minutos para ligarem-se de novo na partida.
Recorde.
Da última vez não demoraram nem dois minutos.
E assim o jogo continuava. Homens se batendo, brigando por uma única bola. A arquibancada indo à loucura. Eles apostando ali no sofá, como se fosse o último dia na Terra.
Na verdade, nunca pararam pra pensar... e se fosse?

Natália Albertini.

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