quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Que a chuva leve consigo.

Joey Cape and Tony Sly - International You Day
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O vento era suave, mas mostrava-se presente por meio das ondulações que causava na água. Esta, por sua vez, colidia com a madeira da plataforma que rangia sob os pés dele. O barco que jazia à sua direita fazia alguns leves e silenciosos movimentos com a ajuda da água.
A brisa tocava-lhe o rosto com suma delicadeza. O céu não estava tão claro, nem tão escuro, estava apenas da cor usual, da cor de seu interior quando pensava nela. As gaivotas davam mínimos saltos e moviam-se do jeito comum, apenas caminhando pelo pequeno cais, procurando algum bichinho mais indefeso que elas do qual pudessem se alimentar.
O rapaz levou as mãos ao rosto e assim as deixou por alguns segundos. Logo depois descobriu a face levando cada mão para um lado, escorregando-a para a nuca e entrelaçando os próprios dedos. Ficou naquela posição durante alguns instantes, de olhos fechados, apenas pensando. Provavelmente pensava nela.
Sentiu dois braços finos e um pouco longos abraçarem-lhe pelas costas. Ele não optou por nenhum outro tipo de reação senão apenas desfazer os nós nos dedos, descer as mãos e fazer estas acariciarem as outras que situavam-se na região de sua barriga. Não restavam dúvidas, não tinha como não ser ela, a menina dos seus olhos.
Ela era bastante mais baixa que ele, portanto ele podia sentir sua cabeça, virada para a esquerda, tocar-lhe as costas, bem abaixo de sua nuca. O silêncio era tão grande que se podia ouvir o barulho do movimento da água. Após alguns segundos, a garota virou a face de frente para as costas dele e as beijou com imenso carinho. Nesse instante, foi possível sentir e vê-lo completamente arrepiado. Seus braços, seu pescoço, tudo, completamente arrepiado. Aquilo era claramente uma explosão de sentimentos e sensações.
Ele teve vontade de puxá-la para dentro daquele barco e remar, remar, remar e remar para algum lugar onde não poderiam ser incomodados. Teve vontade de roubá-la, de tê-la só para ele. Teve vontade de fazer tudo isso, porém não o fez. Depois de tudo, não tinha forças para fazer, principalmente em meio a tal arrepio. Sabia que nada disso funcionaria. Ele se limitou a olhar para o céu e depois a fixar os olhos no horizonte, agradecendo a este imensamente por ter aquela dádiva, aquele anjo junto de si. Respirava de maneira profunda e ocilante, de um jeito ou de outro, sempre se acanhava quando a tinha por perto. Ele enfim abriu os lábios e disse suas primeiras palavras do dia para ela:
- Obrigado por ter vindo...
Ele não viu, mas sentiu que ela havia sorrido. A menina afastou-se, deixando de abraçá-lo, postou-se ao seu lado e sussurrou-lhe ao ouvido:
- Agradeça apenas a si mesmo... - e dirigiu-se ao fim da plataforma, sentando-se de modo a permitir a água beijar-lhe os pés, gélida e um pouco mais agitada.
Ela jogou os braços para trás e apoiou-se sobre eles que tinham como sustento a madeira clara. Seus cabelos estavam soltos e o vento, agora um pouco mais intenso, balançava-os com leveza.
Ele prosseguiu parado por um pequeno tempo. Tempo este durante o qual teve imensa vontade de ter uma câmera ao alcance para poder bater uma fotografia. Entretanto, sabia que mesmo que ele tivesse a câmera, ela sumiria antes que pudesse alcançá-la. Era sempre assim, não tinha como guardar esses momentos fora da memória. Sabia que mais cedo ou mais tarde, esqueceria quase toda a maioria dos detalhes. E o pior de tudo era que tinha plena certeza disso.
Decidiu-se então por ir até lá, juntar-se a ela, afinal, não era sempre que ela aparecia e, quando aparecia, precisava aproveitar. Portanto caminhou e ouviu a madeira ranger sob seus pés, posicionou-se ao lado dela e sentou com pernas de índio, como dizia ela.
Ele fazia de tudo para não a olhar diretamente aos olhos, pois sabia que se o fizesse, seria vítima do encanto dela e tentaria fazer algo que, se realmente feito, apenas o frustraria da pior maneira possível.
O céu cinzento mandou um vento mais forte desta vez. Não tão forte a ponto de descabelar a garota por completo, mas apenas para lhe atrapalhar com algumas finas mexas de cabelo no rosto. Ela tirou algumas dos olhos e então, com sua voz doce e que parecia melodia aos ouvidos dele, disse:
- Então, como você tem passado, meu bem?
Ele, pacífico e quase conformado com o fato de que jamais a teria totalmente, respondeu com voz de desânimo:
- A cada dia pior, isso é, a cada dia mais conformado.
- Conformado?
- Conformado de que nossos universos apenas se entrelaçaram, mas nunca andarão exatamente de mãos dadas.
Ela sorriu delicadamente, assemelhando-se a uma boneca, e baixou a cabeça:
- Como você sabe disso?
- Do mesmo modo que você sabe.
- Eu não...
- Não sabe? É claro que sabe. Você sempre sorri e abaixa a cabeça assim quando eu digo alguma verdade incontestável.
Ela limitou-se a sorrir novamente e a beijar-lhe uma das bochechas: a esquerda, a que lhe estava ao alcance.
- Você tem mesmo que fazer isso? - contestou ele.
- Isso o quê?
- Me torturar.
- Desculpe-me, não sabia que um beijo meu lhe era tão ruim... - ela apenas continuou sorrindo, mas desta vez, era um sorriso em parte culpado, pois sabia que ele não se referia ao beijo.
- Você sabe que não me referi a isto - o fato de ele prosseguir sempre inexpressivo a irritava.
- Sei... Mas então, se referiu a quê?
- Ao fato de você aparecer, me fazer querê-la cada vez mais e depois ir embora e me deixar sozinho.
- Eu não te deixo sozinho...
- Tem razão, eu sei que eu sempre estou sozinho.
- Não, não foi isso que quis dizer!
- Não importa... - os olhos dele se fixavam na dança da água.
Ela suspirou e afastou-se um pouco dele para que assim pudesse deitar a cabeça em seu colo. Deitou confortavelmente e ficou olhando para cima, olhando para ele que, por sua vez, continuava admirando o horizonte e não ela.
- Por que você não me olha?
- Não posso.
- E posso saber por quê?
- Se eu o fizer, você parte.
- Não parto, não. De onde você tirou essa idéia?
- De todas as vezes que você o fez.
- Eu não o...
- Não negue, você o fez.
- Se você diz... Mas te juro que não foi por vontade própria.
- Se é que você tem alguma...
- Que quer dizer com isso?
- Nada, não.
Ela ergueu um de seus braços e com a mão deste, acariciou-lhe o rosto. Enfim ele baixou a guarda, não resistiu, foi obrigado a admirar seu rosto. Ah, e que rosto. Era praticamente tudo com o que sempre havia sonhado, senão a própria tradução de seu sonho. Seus olhos se prenderam nos dela: fatalidade. Agora não havia volta. Tinha apenas mais alguns segundos com ela.
O feitiço havia sido lançado pelo olhar dela, ele não teve como resistir. Aproximou-se e beijou-a com suma afeição e, em parte, receio.
Assim que tocou-lhe os lábios com os seus próprios, o céu cinzento e ranzinza trovejou e enviou-lhes uma chuva gelada, espessa e pesada. Ele abriu os olhos e olhou-a nos instantes finais. Num ato involuntário ele a abraçou e murmurou:
- Por favor, não faça isso comigo de novo.
- Eu não estou fazendo...
A chuva parecia derretê-la, fazê-la escorrer por seu colo. Ele levantou-se para ter melhor visão. E que péssima visão: a viu esvair-se por entre seus dedos. Tarde demais. A chuva a estava levando, estava tirando-lhe de seus braços da maneira mais fria possível.
Que assim fosse, então. Que a chuva a levasse de volta para onde quer que fosse seu lar. Que a chuva levasse consigo também seus sentimentos, para que jamais voltasse a sentir aquela agonia queimante no peito.


Ps.: Foto roubada do Mark . Obrigada, meu bem.
Natália Albertini.

2 comentários:

Laíde disse...

Como eu sempre digo, qualquer dia você me mata com essas suas hitorias facinates.
:)

Rafa O'Konors disse...

eu estou lendo todos os dias viu?
eu amo muito as duas melhores conselheiras doo mundooooooooooooo