sábado, 8 de dezembro de 2007

Conflitos Interiores


A televisão mostrava algum tipo de bobagem incapaz de prender sua atenção por meros quatro ou cinco segundos. Distraía-se apenas com o fato de mudar de canais freneticamente. O telefone tocou: sua salvação. Talvez fosse alguém que lhe tirasse do imenso tédio da tarde de domingo. Levantou-se do sofá e dirigiu-se à mesinha de canto sobre a qual o telefone vermelho ficava. Sentou-se na banquetinha cuja posição era exatamente ao lado do pequeno móvel e tirou o fone do gancho, levando-o à orelha esquerda:

- Alô?
- Fernanda?
- Sim, sou eu. Quem está falando?
- Sou eu, meu bem.
- Aaaaaaaaah, mas que falta de atenção minha. Desculpe-me, querido. Como você está?
- Quer a verdade?
Ela suspirou de modo que ele jamais ouviria, pois já sabia que algo de ruim havia acontecido. Muito provavelmente com a namorada.
- Claro, né, Luigi?
- A Carol terminou comigo...
- Terminou?
- É, terminou! - era possível perceber sua voz vacilando, o pranto era quase iminente, ela sabia que sim, conhecia-o há quatro anos, eram melhores amigos desde então, não havia como não saber.
- Ô, meu bem... - respondeu-lhe num tom afetuoso.
- Ai, Fê, eu não sei o que fazer...
- Mas qual foi o motivo disso?
Ele hesitou, demorou a responder, mas então prosseguiu:
- Fê, você não pode vir aqui? Preciso tanto conversar com você... Preciso do teu abraço, da tua compreensão.
- Está bem, meu amor, daqui a pouco eu estou aí.
Um clique: ela desligou sem maiores despedidas.
Desligou a televisão, dirigiu-se ao quarto, vestiu uma roupa mais apresentável do que aquela que vestia apenas para ficar em casa, pegou sua bolsa, seu celular e sua carteira e saiu do apartamento, trancando-o e logo chamando o elevador.
Chegou à casa dele depois de uns quarenta minutos. Tocou a campainha e esperou que ele viesse atendê-la. Ele não demorou a abrir a porta e, assim que o fez, jogou-se, abraçou-a com toda a força que sua alma e seu coração podiam dar. Ela retribuiu o abraço e beijou-lhe a face com sumo carinho e respeito. Eles entraram e, como de costume, dirigiram-se à sala de estar. Ela largou a bolsa no sofá e sentou-se, bastante á vontade, afinal, ia àquela casa há um bom tempo e eles eram quase irmãos, não tinha porque fazê-lo de outro modo.
Ele sentou-se ao lado dela e esperou que ela fizesse a pergunta mais óbvia:
- Afinal, o que gerou tudo isso?
- Eu não sei, Fê... - ele tinha uma incrível capacidade de fazer as pessoas se comoverem apenas com seu tom de voz quando queria que elas o fizessem. Seus olhos conseguiam penetrar-lhe a alma como outros jamais haviam de conseguir.
- Luigi, você não pensou que pode haver...
Ele a interrompeu e terminou a frase:
- Outro cara? Sim, é por isso que estou assim. Namoro a Carol há dois anos, sempre nos demos tão bem, ela demonstrava-me seus sentimentos com frequência... Meu maior medo é que eu tenha perdido meu encanto para ela, que ela tenha visto que não sou tudo que ela merece...
Fernanda apertou os olhos e o encarou com um de seus melhores olhares: um que ela só usava, e, a propósito, usava-o demasiadamente bem, para acusar alguém de completa insanidade, se é que seres humanos têm alguma sanidade.
- Ora, garoto, não fale isso, assim você me desaponta! Pensando assim, é lógico que ela ia te largar!
- Mas...
- Não, agora você vai me ouvir. Luigi, você sabe que eu não aprovo por completo seu namoro, você sabe muito bem que eu acho que ela te limita em certos aspectos e te mostra horizontes demais em outros.
- Como assim?
- Ah, pelo amor de Deus, você sabe tão bem quanto eu do que estou falando! Ela te oferecer drogas frequentemente não é abrir-te horizontes demais? Ela não te deixar sair com seus melhores amigos não é limitar-te?
- Sim, Fê, mas eu a amo...
- É claro que não! Meu bem, garanto-lhe que você não sabe o que é amar e, por favor, não queira saber tão cedo. Por enquanto tudo o que conhecemos é o amor de família e o amor de amigos, mas quanto a amar outra pessoa, aceitá-la como parte que te completa, isso vai além, muito além de nossa compreensão atual. Não apresse-se em saber, sua hora virá. Mas agora você vem me dizer que ela merece mais do que você? Eu digo o contrário: digo que ela merece alguém que seja um oitavo seu.
Ele sorriu com simplicidade e afeto e abraçou a moça, agradecendo-lhe:
- Obrigado, Fê, eu te amo... Obrigado por tudo. Obrigado por ser uma quase irmã minha, obrigado por estar sempre disposta a me ajudar... E eu prometo que vou ao menos tentar mudar minha mentalidade.
- Ótimo, já é passada a hora - ela sorriu de volta.
Passaram duas ou três horas mais jogando conversa fora e então ela decidiu partir. Despediram-se e ele a agradeceu novamente, desejando-lhe boa noite logo depois.
Voltou a pé, bastava andar alguns quarteirões, entretanto isso foi suficiente para mexer com seu interior.
Enquanto caminhava, tudo voltou à tona. Tudo o que tinha de melhor guardado, tudo o que não queria que voltasse. Tudo. Tudo o que sentia por aquele infernal garoto.
Era tão irritantemente ligada a ele, tão desagradavelmente íntima com ele... Ela jamais iria querer algo além de amizade, se é que isso já não era grande coisa. Jamais pensaria nele como algo além de melhor amigo. Era só que de vez em quando isso voltava e nem ela sabia por quê. Voltava como as ondas voltam para a praia, o ritmo era o mesmo, era aquele vai-e-vêm constante. Se bem que o dela não era tão constante assim... Devia ser culpa dos malditos hormônios.
Pretendia ficar solteira por um demasiadamente longo tempo e jamais, jamais iria querer quebrar esse "plano" com um melhor amigo. Mas os hormônios sempre a invadiam. Não fazia sentido nem para ela, mas ela sentia e isso não podia negar.
Uma chuva fina e gélida começou a cair do céu. Adorava chuvas solitárias, isso é, não acompanhadas de relâmpagos ou trovões. Deixou-se molhar por completo pela água. Banho de chuva sempre limpava sua alma, a chuva era uma de suas melhores companhias, sempre levava com ela os sentimentos e pensamentos indesejáveis para a moça.
Após alguns instantes, chegou ao hall do prédio completamente molhada. Subiria de forma rápida para que ninguém reclamasse.
Entrou no elevador e seu celular apitou. Ela esperou entrar em casa e secar a mão para poder pegá-lo. Luigi havia acabado de mandar uma mensagem:
"Fê, você nem sabe. A Carol disse que ela só estava confusa e a gente voltou!"
A mensagem continha também algum tipo de símbolo que demonstrava felicidade.
Fernanda limitou-se a rir daquilo e tudo que lhe veio à mente foi que seu plano estava de volta: pretendia, sim, continuar solteira por um bom tempo e por mais que fraquejasse de vez em quando, algum garoto a fazia se lembrar de como eles quase não valiam a pena.

Natália Albertini.

Um comentário:

Ana Paula disse...

Esse texto me faz lembrar mim mesma;E alguém que me conhece e se parece muito comigo...HAHA
Ai Natá,vai soar meio 'Avon',mas a gente conversa,a gente se entende.

E quer saber?Eles não valem mesmo a pena.