quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Retrovisor.

Enquanto eu olhava pelo retrovisor, prestando imensa atenção no trânsito daquela estrada e falava sobre alguma amenidade, senti um toque suave em minha perna esquerda. Virei a cabeça para meu lado esquerdo e vi meu pai dirigindo, como sabia que o encontraria. Mas algo foi incomum. Ele trazia no rosto um sorriso definitivamente feliz e infantil.
Enquanto uma das mãos segurava o volante e garantia que o automóvel continuasse na mesma direção, a outra tinha todos os dedos dobrados, exceto o indicador, uma vez que este apontava o velocímetro do carro. Antes mesmo de ele falar, meus olhos já estavam marejados:
- Sua mãe fica louca quando faço isso nesse trecho da estrada...
Sua felicidade era tão visível e infantil que me invadiu de forma completamente súbita. Não pude pronunciar quaisquer palavras, apenas soltei um pequeno riso, para ele entender que eu o havia escutado. Não precisava fingir nada mais, afinal ele não estava me olhando, o momento já havia passado com a mesma velocidade do carro, ele já havia prendido a atenção novamente no câmbio e no retrovisor esquerdo.
Felicidade deste nível senti a alguns dias atrás, quando ensinei um passo novo de dança a ele e então ficou maravilhado infantilmente.
Não sei bem explicar como me senti, apenas senti. São coisas que a gente não sabe o motivo, elas simplesmente acontecem e você acha aquilo mágico.
Talvez não consiga traduzir em palavras aquilo que senti, mas pelo menos tentei. Sei que se não o fizesse, essa sensação iria embora logo, logo, e alguns meses depois, algum tipo de vislumbre voltaria e eu não a recordaria por inteiro, deixando ainda maior a frustração.
Isso é bem pessoal, mas talvez lendo este texto, você se lembre de alguma outra situação com qualquer outra pessoa amada. Jamais deixe de demonstrar a estas o quanto elas lhe são fundamentais.
Acredite, eu sei bem o valor de tudo isso e o quanto nos custa dizer, mas simplesmente temos de dizer...
Exatamente agora, meus olhos estão marejados, pai, e espero que algum dia eu tenha coragem de te mostrar isso.

Natália Albertini.

Nenhum comentário: